O Mistério do Carro Roubado

Junho 21, 2008 at 11:46 am (Contos) (, , )

Acontece com todo mundo. Cedo ou tarde, você pode ser a próxima vítima…

Certo dia, fiquei acordado até às 04:30 da madrugada, determinado a detonar o jogo para PC And Then There Were None. Quase consegui, mas tive que parar no capítulo oito por ser absolutamente impossível jogar de olhos fechados. Além do mais, eu tinha que trabalhar na manhã seguinte, de modo que minha aventura noturna não foi mesmo uma boa idéia.

Ao meio-dia, exausto, cheguei em casa, pronto para almoçar, tomar banho e ir dormir. Revisando as tarefas, notei que o segundo ato, tomar banho, esbarrava em um pequeno problema doméstico: não tinha mais desodorante em casa. Enquanto meu almoço ficava pronto, peguei o carro e fui até a Farmácia do Walmir, meu amigo, para comprar o produto. Voltei para casa, almocei, tomei banho e fui dormir.

Tive sonhos agitados, nos quais incontáveis rolos de capim passavam rolando por vastidões sem fim, ao som de High Plains Drifter.

Acordei às 17:00, com a tia e a mãe solicitando meus serviços de motorista para irmos até o mercado fazer compras. Estava chovendo, mas mesmo que não estivesse seria impossível nos dirigirmos até o mercado por um pequeno detalhe: o carro não estava mais na frente de casa!

Com a calma de um mordomo inglês, comuniquei para minha tia que o veículo havia sido furtado. Minha mãe, numa reação perfeitamente condizente com seu status, desatou a rir. Eu corri embaixo da chuva até a garagem onde deixamos o carro guardado. Conforme o que eu já esperava, ele também não estava lá!

Voltei para casa ensopado. Minha mãe ainda estava rindo e uma outra tia, italianíssima, que havia chegado ao local, repetia sem parar:

“maaáááÁÁÁÁ!!!!!”

Felizmente, nessas horas é preciso alguém com tino para agir. Minha mãe pegou o telefone e fez uma ligação!

“Óbvio! Temos que ligar para a polícia!” – pensei eu – “Minha mãe sabe tudo!”

Infelizmente, supervalorizei a perspicácia da Pissit (apelido da minha mãe). Ao invés da polícia, ela telefonou para uma amiga para contar a fofoca do momento: “Nosso carro foi roubado!”

Até aquele momento, eu não estava nervoso, mas aquilo foi a gota da água. Fiquei indignado com a Pissit! Assim que ela desligou, telefonei para a seguradora e fui orientado para ir até a delegacia registrar o Boletim de Ocorrência. Graças a ajuda de uma tia, consegui uma carona e fomos até a Delegacia da Polícia Civil, onde expliquei que o carro tinha alarme e trava, mas mesmo assim havia desaparecido da frente da nossa casa durante o dia.

Uma vez de posse do número do Boletim de Ocorrência, minha tia me deu uma carona de volta para casa, onde eu ainda tinha que ligar para a seguradora. Uma leve depressão se abateu sobre mim, pois pela primeira vez eu estava contando o prejuízo: franquia do seguro, mais o IPVA, mais o seguro novo… Além do transtorno de ter que arranjar um outro carro tão bom quanto o que eu tinha e que ficasse dentro do valor da carta de crédito, etc..

Aquilo não podia ficar assim! Estava na hora de usar as pequenas células cinzentas, bancar o Hercule Poirot e, sem esperar pela polícia, recuperar eu mesmo o veiculo furtado! Será que era possível realizar um feito dessa magnitude? Poderia o grande Samael Fauntleroy Darcangelo desvendar esse mistério dantesco?

Naquele exato momento, passávamos em frente a Farmácia do Walmir e eu vi ele… bordô metálico, placa IFX… Ele! O meu carro! Estava estacionado na frente da farmácia!

Duas linhas de pensamento bem claras se formaram em minha mente. A primeira dizia que os ladrões passaram mal durante a fuga e resolveram parar na farmácia para comprar remédios. A segunda linha dizia que eu havia simplesmente esquecido o carro na frente da farmácia desde o meio-dia.

Apesar da primeira hipótese ser a mais plausível, na verdade constatou-se que eu realmente havia esquecido o carro na frente da farmácia. Ocorreu que eu fui de carro comprar o desodorante e, estando exausto, esqueci que tinha ido de automóvel e voltei para casa a pé, nas quatro patas.

Tive muito trabalho para cancelar o Boletim de Ocorrência. No entanto, antes mesmo de ir até a delegacia de novo, para não correr o risco de ter o carro guinchado na rua, tirei ele da frente da farmácia e coloquei de volta na garagem. Foram apenas 500 metros, mas posso dizer que vivi a emoção de dirigir um carro roubado!

E assim, mais um mistério foi esclarecido graças as minhas pequenas (minúsculas, insignificantes) células cinzentas!

Vítima: Samael

Detetive: Samael

Culpado: Samael

É, pessoal, acontece com todo mundo. Cedo ou tarde, você pode ser a próxima vítima… da idade!

FIM

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Juntos para Sempre

Junho 21, 2008 at 12:09 am (Contos) (, , )

um conto de Lorde Samael Darcangelo,

dedicado `aquela que foi sem nunca ter sido

CAPÍTULO UM – O BRINDE LARANJA

O restaurante Pour Tours, ao contrário do que se poderia esperar, é um lugar sofisticado, localizado `a beira-mar, de onde podemos vislumbrar a magnífica ponte Hercílio Luz, em Florianópolis. Trata-se de um ambiente aconchegante, onde, além das melhores iguarias da culinária catarinense, os fregueses ainda podem se deliciar com música ao vivo, tudo no melhor estilo HardRock Café.

Nesta noite, a mesa principal do requintado restaurante, está ocupada por um casal um tanto singular. O homem de aspecto sombrio é realmente alto, cerca de 1.83m, possui cabelos e olhos negros que só colaboram para aumentar o aspecto taciturno de seu semblante. Samael Darcangelo é o seu nome, e, aos 28 anos, ele é um dos mais aclamados personagens do cenário empresarial. Sua companhia de desenvolvimento, Cabalco S.A., fabrica as mais sofisticadas peças para o setor automotivo. É sabido que todo sucesso da empresa deve-se a brilhante mente por trás daqueles olhos negros.

Nesta ocasião, porém, poucos homens olhariam duas vezes para Samael. Sentada à frente do mesmo, está sua esposa, uma ruiva de rosto delicado e de grandes olhos amendoados. A garota tem apenas 19 anos e resplandece sua juventude em cada gesto. Seu jeito meigo e sensual, aliado a uma voz angelical, são capazes de prender a atenção de qualquer um que fite aqueles olhos por mais de dois segundos. Com certeza, Jane Finn é uma daquelas poucas mulheres que ainda detêm o antigo poder de destruir corações.

Ela está encarando Samael nos olhos, e só agora ele parece perceber que algo incomoda sua esposa. Por que ela não estaria feliz no jantar em que os dois comemoram o seu aniversário de casamento? Ela reclama:

- EU NÃO ACREDITO! No nosso aniversário de casamento, você convida um estranho para jantar conosco!

- Ora, Jane, seja prática! Você sempre disse que queria morar na Lagoa, não disse? Este corretor de imóveis arranjou um apartamento de cobertura perfeito para nós! Já negociei tudo por telefone e neste jantar iremos selar o contrato! Ele irá conosco hoje mesmo até a cobertura e entregará as chaves do imóvel! Você deveria agradecer a minha generosidade!

Jane respondeu, visivelmente irritada:

- Ora! Porque justamente no nosso jantar, NESTA DATA?

- Querida! Sou um homem muito ocupado, não tive tempo de atender o Sr. Mitáfilo antes e só vi as fotos da cobertura. Por que não aproveitar esta oportunidade? Vamos lá, examinamos o local e já despachamos o tal “Mitáfilo”…

Sorrindo maliciosamente, ele acrescentou:

- Afinal de contas, você também precisa me dar alguma coisa hoje, não é?

Jane ficou em silêncio, mas a ira crescia em seu peito: “PORCO!” – esta palavra quase escapou de sua boca, mas felizmente, o autocontrole era uma de suas virtudes.

Nesse instante, o tal Sr. Mitáfilo entrou no restaurante. Localizou rapidamente a mesa certa e em segundos já cumprimentava efusivamente o casal Darcangelo.

Mitáfilo sentou-se à mesa. Era um homem alto, loiro, com olhos verdes pastosos e um aspecto um tanto quanto bovino. Algum apostador diriaa que sua idade beirava os trinta anos. Qualquer pessoa que olhasse tal figura, com seus óculos fundo de garrafa e seu bigode estilo escovinha, logo definiria a profissão do mesmo: corretor de imóveis.

Jane Finn, ainda inconformada com a presença do homem, nem perdeu tempo com um segundo olhar sobre o recém chegado. No entanto, Mitáfilo, que estudara detalhadamente toda a vida do casal, também os analisava:

“Hummm… Esse Samael parece mesmo ser esperto… Não gosto de gente que olha muito fixo nos olhos… Vou ter que ser mais esperto que ele… E a garota? Meu Deus, que coisa linda! Nossa senhora, ela tem só dezenove anos! Também, esse cão argentino deve ter assaltado a maternidade!”

Em voz alta, Mitáfilo declarou:

- Sr. Samael! Faz tempo que eu tento marcar um encontro com o senhor! E que oportunidade esplêndida é esta que aqui se apresenta, pois estou tendo também o prazer de conhecer sua jovem esposa.

- Ah! Tive a maior sorte! Pode-se dizer que assaltei a maternidade!

Mitáfilo relembrou o que havia pesquisado nos jornais de seis anos atrás:

Samael conheceu Jane através da internet. Ambos participavam de uma lista de fãs de Agatha Christie. Talvez fosse este o único passatempo ao qual se permitia o então atarefado universitário, porém, foi o suficiente para conhecer a garota e, mesmo apesar da diferença de idade, após dois anos do primeiro encontro, veio o casamento.

Jane Finn levantou-se e dirigiu-se a copa do restaurante. Samael, sem ao menos notar que sua esposa saira, disse a Mitáfilo:

- Logo após o jantar, iremos verificar o imóvel. Você trouxe o contrato e as chaves?

- Perfeitamente! Com certeza o senhor está fazendo um dos melhores negócios imobiliários da cidade, blá, blá, blá…

- Por favor! Não comece com essa conversa fiada de vendedores! – dizendo isso, Samael apanhou do bolso interno de sua jaqueta um frasco, de onde retirou e engoliu uma pequena pílula marrom.

Mitáfilo sabia que Samael estava tomando o remédio para seu enfraquecido coração, cuja fragilidade congênita fora uma herança maligna do pai argentino. No entanto, o que mais chamou a atenção do astuto Mitáfilo, foi o palm top que ele pode vislumbrar rapidamente quando a jaqueta foi aberta. O famoso palm top onde Samael armazena todos os seus projetos mais importantes! O empresário não confiava em ninguém quando estava desenvolvendo um novo produto e, fora esse palm top, a única outra cópia do projeto da nova peça que prometia revolucionar o mercado de automóveis estava trancafiada em um cofre de banco. Sem sombra de dúvida, o segredo contido naquele minúsculo equipamento valia alguns milhões de dólares.

Jane Finn voltou com uma surpresa. Trazia consigo um baldinho com gelo e dentro dele uma latinha do famoso refrigerante de laranja, conhecido por todos como Sukita. A latinha já estava aberta, pronta para o consumo. Sorrindo, com seu ar angelical, a jovem colocou o balde bem na frente de Samael, dizendo em tom irônico:

- Querido! Você não pensou que eu iria me esquecer, não é?

Samael, com um sorriso amarelo, explicou para o confuso Mitáfilo:

- Minha bem humorada esposa, sempre que pode oferece uma lata dessa deliciosa bebida para o seu “tio Sama”. Tudo bem, amore, deixe estar que a noite ainda é uma criança…

Mitáfilo ficou pensativo, uma idéia se formou em sua mente. Pedindo licença, ele se afastou da mesa. Voltou um pouco mais tarde, com outro balde de gelo e outra latinha de Sukita, pronta para beber. Ele a colocou em frente à Jane Finn e explicou, piscando um olho:

- Um presente meu para que o jovem casal possa brindar apropriadamente o seu aniversário de casamento desse modo tão inusitado.

Jane sorriu. “Esse tal Mitáfilo tem um bom senso de humor!” – ela pensou.

Eram 22:30 e as cortinas do palco principal subiram naquele exato instante. A banda Mundus Mulieris iria iniciar a sua apresentação. O líder e vocalista da banda era Pete Death, o irmão caçula de Samael.

Seu parentesco era somente pela parte de mãe, o pai de Pete era brasileiro mesmo. Talvez por isso, os dois nunca chegaram a manter um bom relacionamento. Para o grande empresário, o poeta cantor nunca passaria de um fracasso ambulante. O fato de Pete priorizar outras coisas na vida, que não o sucesso financeiro, era algo incompreensível.

A esposa de Samael, no entanto, devia pensar bem diferente, pois seus olhos ficaram úmidos e a emoção em seu rosto era visível quando Pete saudou o público. Mitáfilo notou a reação de Jane e concluiu que ao menos desta vez, o boato que corria nas altas rodas da sociedade era verdadeiro: “Jane e Pete vinham mantendo um caso há meses”.

Mitáfilo fitou os olhos de Samael, tentando adivinhar se este sabia que sua cabeça estava sendo enfeitada, porém o mega empresário parecia indiferente. Ao terminar de ouvir a saudação de Pete, ele comentou:

- Veja só! Esse daí é meu meio irmão. Meio mesmo sabe? Duvido que algum dia ele se torne algo inteiro! Ponha algodão nos ouvidos, você vai precisar!

- Silêncio! – Jane interrompeu – Vamos ouvir!

Pete Death começou a cantar, com uma voz grave, prematura para seus 19 anos, mas que combinava perfeitamente com os seus 1.90m e seu aspecto de viking. Ele parecia estar olhando fixamente para a mesa onde se encontrava o trio. A canção começou assim:

“Estátuas e cofres e paredes pintadas, ninguém sabe o que aconteceu…”

Samael sussurrou para seu convidado:

- Com certeza ele não sabe mesmo o que acontece… Também pudera! Abandonou os estudos antes de completar o segundo grau!

Jane Finn fulminou o marido com um olhar. Mitáfilo mal pode conter o riso. A música continuava…

“Me diiiiizzzzzz, porque que o céu é azul? Me explique a grande fúria do mundo…”

Samael olhou para Mitáfilo e “respondeu”:

- Eu não disse que ele largou os estudos? O céu é azul porque a nossa ionosfera retêm todas as outras cores do espectro solar, deixando apenas a gama azul passar! E o que ele quer saber sobre a fúria do mundo? Ora bolas! O universo se originou em uma imensa explosão! É claro que o mundo tem que ser furioso!

Mitáfilo teve que se conter para não gargalhar muito alto. Jane ao contrário, extremamente vermelha, disse entre os dentes:

- Nunca! Nunca em minha vida conheci alguém tão frio como você!

- Jane! Que injustiça! Vamos deixar para acertar isso mais tarde, em nossa nova cobertura…

- Pois fique sabendo que você vai somente com o Sr. Mitáfilo conhecer esse lugar. Eu estou com dor de cabeça e vou para casa!

- Ora amore… Tudo bem, não vamos nos estressar… Olha só, está começando a música que Pete fez para nós! Você me dá o prazer desta dança?

Jane deixou Samael conduzi-la a pista de dança, apesar de saber que a letra de “Eduardo e Mônica” não fora escrita por Pete para “Samael e Jane”…

Mitáfilo ficou sozinho na mesa.

Assim que a apresentação terminou, o casal voltou para a mesa. Pete Death, muito aplaudido, sequer voltou ao camarim, ao invés disso, aproximou-se do irmão:

- Olá Pessoal! Tio Sama! Jane! Hmmm… senhor?

Samael apresentou:

- Este é o corretor Mitáfilo. Estamos fechando um bom negócio hoje à noite.

- O quê! Aproveitando o aniversário de casamento para fechar negócios? Esse meu mano velhaco não tem jeito mesmo, não é Jane?

Dizendo isso, Pete apanhou a latinha de Sukita de Jane e aproximou dos lábios para tomar um gole. Samael, aborrecido, deteve o gesto de Pete:

- Pare! Não estrague o nosso “brinde laranja”!

Jane retirou a lata de sukita das mãos do cantor e disse suavemente:

- Não irrite os mais velhos, Pete. Deixe-me brindar com o tio Sama… afinal são quatro anos de casamento! Sou uma heroína, não sou?

Mitáfilo acompanhava a cena, ansioso. Samael também apanhou sua lata e entrelaçou seu braço com o de Jane. Ele disse:

- A você Jane! O melhor negócio que já fiz em minha vida!

Jane fitou os olhos escuros de samael e respondeu:

- Pela felicidade!

No telão localizado no fundo do restaurante, um vídeo exibiu uma imagem de um rolo de capim imenso, que passou rolando pela tela.

De braços entrelaçados, cada um bebeu um gole de sua respectiva lata de refrigerante. Instantes depois, Samael ainda sorria, porém a expressão no rosto de Jane era de horror. Ela engasgou… Seu rosto ficou vermelho. Ela tentou desesperadamente sussurrar algo, enquanto três homens atônitos a deitavam no chão do restaurante. Para-médicos foram imediatamente chamados, porém era muito tarde… O tempo de vida de Jane Finn neste mundo estava esgotado.

 

 

CAPÍTULO DOIS – A INVESTIGAÇÃO

O delegado Quin Linhares, especialmente designado para cuidar do caso do restaurante Pour Tours, já estava ciente do escândalo que o assassinato de Jane Finn causará na alta sociedade florianopolitana. Ele comentava com seu amigo e colaborador em muitos casos, o xerife Poio:

- Poio! Que calamidade! Uma garota bela como Jane Finn, estimada por todos que a conheciam! E agora isto, envenenamento por arsênico! Por quê? Não faz sentido!

Poio argumentou:

- Você já ficou sabendo que ela e o irmão de Samael estavam tendo um caso? Pelo menos metade das fofocas da alta sociedade giravam em torno desse assunto! Pode ter sido um crime passional…

- Duvido muito… Esse Samael é do tipo que só parece pensar em negócios, no entanto, é uma possibilidade que não devemos descartar, porém, falta algo… E se fosse Pete Death? O que ele ganharia matando a esposa de Samael? Jane vem de família pobre… Se Samael fosse a vítima… Daí sim eu compreenderia os motivos de Pete Death, mas não visualizo como ele pode ter colocado o veneno na bebida.

O xerife Poio alisou sua barbicha e falou:

- O que eu não entendo é o cloral! A lata de Sukita de Jane continha uma dose fatal de arsênico e a de Samael continha cloral! Em alta dose, é também um veneno mortal, porém, a dose presente na Sukita faria Samael cair em sono profundo em no máximo meia hora, sem correr maior risco de morte! Um autêntico “boa noite Cinderela!”

O delegado Quin, fitando seu tabuleiro de xadrez preferido, disse, animando-se:

- A presença desse cloral terá que ser explicada por esse tal Mitáfilo! Trancafiamos o homem agora há pouco! Um garçom viu o elemento jogando para longe um pequeno frasco branco, logo na hora do tumulto. E o que havia no frasco senão cloral?

A situação de Mitáfilo complicara-se muito, principalmente com a descoberta de que sua identidade era falsa, tão pouco ele havia sido corretor na vida. Ninguém do ramo imobiliário conhecia o sujeito. O verdadeiro corretor, responsável pela cobertura, disse que Mitáfilo apresentara-se como um cliente interessado em comprar o imóvel e obtivera através deste pretexto as chaves para uma visita ao imóvel. O xerife Poio disse:

- Ele tinha o cloral, está mentindo sobre sua identidade e, portanto, seus motivos são desconhecidos. Há menos que ele tenha uma história muito boa, o mistério logo estará resolvido. Uma noite trancado em uma cela quatro por quatro é um dos melhores remédios para problemas de amnésia…

Relendo o material já obtido sobre o caso, O delegado Quin expressou seu maior desejo naquele momento:

- Se nós pudéssemos ter acesso à mente dessas pessoas… se pudéssemos saber o que estão pensando…

 

CAPÍTULO FINAL – PENSAMENTOS

Pete Death:

Sentado no sofá de seu pequeno apartamento, esse jovem viking de 1.90m já havia consumido mais de dois terços de uma garrafa de tequila José Cuervo. No entanto, a dor em seu coração estava além da capacidade de cura do álcool. Ao fitar a cama onde ele e Jane haviam se encontrado tantas vezes nos últimos meses, ele não pode deixar de pensar:

“Jane! Ah Jane! Nunca mais…”

Ele queria fugir com a garota. Tantas vezes ele propôs para ela, ali mesmo: “vamos fugir”; “vamos viver como hippies modernos!”; “eu, você e o verde sem fim…”

E agora ela estava morta! Samael! Maldito Samael, ele havia descoberto tudo e resolvera se vingar, matando a criatura mais linda que já existiu no mundo… O quê fazer? O poder de Samael certamente impediria a justiça… E de que adiantaria a justiça agora? Afinal, Jane estava morta!

Em cima da mesinha, perto do sofá, Pete havia colocado dois objetos. À esquerda estava seu violão, parceiro de muitas aventuras, à sua direita, estava um objeto mais sinistro, um Taurus .32, carregado com seis pequenos projetis. Pete tinha que fazer uma escolha. Pegar seu violão e continuar sua vida, continuar a criar, continuar a viver, pois a música era a sua vida… Ou…

Tomando mais um gole de tequila, Pete moveu o braço em direção à mesa, murmurando o apelido carinhoso de sua amada:

- Miss Jane, estou indo…

 

Samael:

Deitado sozinho em sua cama, Samael tentava afastar alguns pensamentos até então estranhos em sua mente:

Morta…

O que havia dado errado entre eles? Será que era o jeito calado dele? Quantas demonstrações de amor ele dera para a garota nesse tempo todo? Roupas, perfumes, carros, iates… Todo seu esforço na empresa… tudo apenas para Jane se orgulhar dele… Onde ele falhará? O que o dinheiro não pode comprar?

Morta…

E agora, essa sensação estranha… muito além da perda de um bom negócio… Essa sensação de que algo sempre iria faltar em sua vida, algo muito importante…

Morta…

E a culpa era dele! Fora ele quem caira na conversa fiada de Mitáfilo! Para agradar Jane, ele a havia exposto a um elemento estranho, que agora já se sabia que era um impostor!

“Ah! O cretino vai pagar carro por isso! Nem que eu gaste toda minha fortuna… Esse cão não perde por esperar…”

Mort…

Samael interrompeu seus pensamentos, virou-se para o lado, apanhando o jornal do comércio e começou a analisar as cotações da bolsa:

“Hummm… Bons negócios à vista!”

 

 

Mitáfilo:

Mitáfilo não conseguia fechar os olhos naquela noite. Trancafiado na cadeia, as paredes pareciam estar se encolhendo sobre ele… Que avalanche toda era aquela por cima dele? Como tudo pudera dar tão errado? O que fazer agora?

“Aquele cretino do Samael já devia saber que eu era um farsante. O cão sabia que eu só estava interessado naquele Palm top!”

Realmente, Mitáfilo era um dos mais discretos e bem pagos espiões industriais do mundo. O plano para roubar os segredos do último projeto de Samael significariam sua aposentadoria… Porém…

“A história das latas de Sukita foi perfeita, eu pude colocar a dose de cloral para a pequena Jane quando fui buscar a lata na copa do restaurante. Pronto, a garota ia dormir com os anjos… Logo surgiria a oportunidade para colocar o sonífero também na bebida de Samael…”

Mitáfilo levantou-se e começou a caminhar em círculos pela cela… Seu pensamento voava:

“Quando Jane disse que não iria mais conosco visitar o imóvel, tudo ficou mais fácil. Eu nem acreditei quando eles saíram para dançar, me deixando sozinho na mesa! Muita sorte… Eu deveria ter desconfiado que era armação…”

O jovem espião esmurrou a parede de pedra, machucando seus dedos:

“Troquei as latas! Deixei Jane para beber a lata pura de Samael e Samael beberia o cloral que eu já havia posto na outra! Tudo simples. Jane e Pete vão para um lado, eu, Samael dopado e seu palm-top para o outro…”

“E agora? O que eu faço? Confessar tudo seria admitir que sou um espião e logo descobrirão meus outros serviços sujos… e… e… Eu não vou sair daqui!”

O suor escorria pelo rosto de Mitáfilo, o pavor estava estampado em sua face:

“Eu não vou mais sair daqui… Eu não vou mais sair daqui…”

 

 

E os mortos? No que pensam os mortos?

Aquela bela garota, que o mundo outrora conhecera como Jane Finn, sequer lembrava o nome que havia usado em vida. Ela passara incontáveis eras apenas caindo, caindo, caindo… Rumo a este lugar. Este lugar, cujo nome ela não queria pronunciar de modo algum. E ali estava ela, em pé, às margens de um estranho rio de água verde, que corria lentamente… Ela fitava aquela água quase parada com um olhar cada vez mais perdido.

O céu a sua volta era cinza, pesado e opressivo e caía uma garoa muito fria e gelada, enevoando o ambiente. Todo o resto eram pedras e desolação.

A sensação de perda que Jane sentia era enorme. Ela já não lembrava de mais nada de sua vida recém passada, exceto a de que perderá algo muito importante, algo precioso…

Se ela já não podia mais lembrar do amor, por outro lado, o ódio que dominara seu coração ainda estava muito quente dentro dela. Um ódio que ela podia exprimir numa só palavra: Samael!

Maldito! Se ele tivesse morrido, as coisas seriam diferentes! Ela não estaria ali… Disso ela não esquecia:

“Coração fraco… Veneno na bebida… Samael morto!”

Porém, o que havia dado errado? Por que ela havia provado de seu próprio veneno?

A felicidade agora era apenas uma ilusão. À distância, ela podia distinguir alguns vultos, todos tão irreais…

Se ela ainda pudesse reconhecer o mundo a sua volta, perceberia o jovem de aspecto viking que estava parado bem ao seu lado. Em sua mão ainda havia uma Taurus .32, mas ele logo a deixou cair. Seus olhos tristes também estavam fixos nas águas verdes daquele lento e monótono rio e ele também já não compreendia mais o sentido da palavra “amor”, somente restara a sensação de perda e de vazio.

E, assim, Jane Finn e Pete Death terminaram juntos para sempre, nesse estranho lugar onde “esperança” é uma palavra sem significado.

F I M

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Os Fãs de Agatha Christie

Junho 13, 2008 at 12:25 am (Contos) (, , )

Capítulo Um: Encontro no Mitatório

Rio de Janeiro – sábado – 09:00

Tommy Ruas pensou: “É a realização de um sonho”.

Pela primeira vez, um grupo de amigos se reuniria para que todos se conhecessem pessoalmente. Até então, eles apenas trocavam correspondências através da internet. No início, tinham em comum apenas a paixão pelos livros da escritora inglesa Agatha Christie, mas com o passar do tempo, começaram a perceber diversas outras afinidades. A bem da verdade, alguns deles já se conheciam pessoalmente e foi assim que surgiu a idéia do encontro. E que lugar melhor para acontecer um evento desses do que o Mitatório? Era simplesmente o lugar perfeito!

O Mitatório era o restaurante de Tommy. Ele comprara aquela grande casa em estilo vitoriano há alguns anos. Apesar do lixo e da imundície acumulados e do péssimo estado da obra, Tommy viu todas as possibilidades do ambiente. Após muitas reformas, o resultado era um agradável e aconchegante restaurante temático, destinado aos amantes do mistério e da aventura.

O estilo da casa, a decoração, os jardins, enfim tudo havia sido projetado para que o conjunto final lembrasse as imensas mansões vitorianas, onde costumavam acontecer crimes escabrosos e aparentemente insolucionáveis, isto é, crimes que aconteciam apenas no universo das obras de mistério.

Naquele instante, Tiago Ruas entrou apressado pela porta principal. A primeira vista, poderia se dizer que os dois eram irmãos, porém, Tiago era sobrinho de Tommy. O jovem estudante de teatro adorava histórias de mistério e era o fiel escudeiro de Tommy, ajudando-o a administrar o Mitatório. Os clientes mais antigos chamavam os dois de “Irmãos Hastings”, devido à semelhança de ambos com o ator inglês que interpretava este personagem de Agatha Christie em uma famosa série de televisão.

Tiago estava afobado, como sempre, e perguntou:

- A que horas o pessoal vai chegar?

- Bom dia, Tiago! Os nossos convidados devem estar chegando a partir das dez horas. Dispensei todos os funcionários, como tínhamos combinado, vamos criar um clima mais familiar para nossos amigos. Você preparou o enigma?

Tiago respondeu sorrindo:

- Claro! Assim que forem chegando, vão colocar seus pertences em cima da mesa, no hall de entrada e poderemos realizar o jogo.

Tommy adorava esse tipo de enigma lógico, uma pequena diversão bem apropriada para fãs de mistério. No entanto, um outro assunto aflorou na mente do dono do Mitatório, que se lembrou de perguntar:

- E seus estudos, Tiago? Vejo seu material de estudo sempre na cozinha e me pergunto se você está realmente preparado para o teste da escola de teatro?

- Vai ser na semana que vem, tio. Estou pronto!

- Ótimo! Você sabe que tem que se virar na vida sem depender do Mitatório! Lembre-se de todo esforço que meu irmão, seu pai, fez para pagar seus estudos… Você tem que ter a mente concentrada em concretizar o seu destino, que é o de ser um grande ator!

Tiago sabia muito bem o que o tio estava querendo insinuar, alias, fazia dois meses que ele vinha ouvindo essa mesma história. Oportunamente, o ronco de um potente motor ultrapassando os portões de entrada foi à deixa certa para Tiago mudar de assunto:

- Ouça, tio! Nosso primeiro convidado acaba de passar com seu carro pelo portão principal, vamos recebê-lo lá fora!

O primeiro a chegar foi Mitáfilo Nehujar, o gaúcho de origem alemã. Ninguém que olhasse para aquele sujeito vestido como surfista, com aquela camisa azul florida indefectível, diria que estava diante do mais brilhante estudante de medicina da Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Tiago exclamou:

- Fala Mitá! Cara! Que carrão é esse? Você nunca me disse que tinha um Corolla!

Mitáfilo, todo sem jeito, começou a explicar:

- Pois é… Ganhei de presente do meu pai quando passei no vestibular…

Nesse momento, um carro entrou rapidamente no estacionamento, passou tão perto do Toyota de Mitáfilo que este chegou a verificar se o retrovisor continuava no lugar. Tratava-se de um Vectra, dirigido por uma mulher exuberantemente vestida. Ela conduziu o carro até a porta principal do restaurante, passando a centímetros do pé esquerdo de Tommy, que saltou para trás, assustado.

Sabrina Baltor, a indômita motorista do Vectra, estacionou bem em frente à entrada do Mitatório, justamente no lugar onde mais poderia prejudicar o trânsito, e desceu rapidamente do carro, seguida por sua vizinha, Mariana Mascheroni.

Sabrina era uma carioca com toda a saúde e beleza de seus 24 anos. Muito extrovertida, ela começou a falar de forma esfuziante: “Felicidade Total”, “O dia mais feliz da minha vida”, “Que prazer ver vocês aqui!”, etc..

Já a sua vizinha era muito mais reservada. A adolescente Mariana, a mais nova do grupo, ainda tinha o rosto de um anjinho, a menos é claro, que um observador mais atento fitasse aqueles pequenos e malvados olhos escuros por algum tempo.

Mitáfilo mal tinha se recuperado do susto, quando apareceu no estacionamento um Vectra do mesmo modelo do anterior e com outra carioca esfuziante ao volante. Felizmente, Claudinha S. Leite, a jovem morena de 23 anos, dirigia bem melhor que sua conterrânea.

A animada turma que havia se formado já ia entrando no restaurante quando chegou Adriano Domingues em seu Fiesta Preto. Adriano era alto, poderia muito bem ser jogador de basquete se quisesse, mas era bem tímido e quando falava, mal se escutava a sua voz. Ele se apresentou polidamente, demonstrando toda a formalidade de um inglês, mesmo que a Inglaterra estivesse a milhares de quilômetros do local onde estavam.

Tommy convidou todos:

- Vamos entrar! É melhor nos apresentarmos tomando um Sirop de Cassis, mas cuidado! Advirto a todos que os brindes de cianureto são permitidos no Mitatório!

Tiago foi fazendo às vezes de anfitrião, orientando todos para que deixassem bolsas, carteiras e chaves de carro em cima da mesa do hall de entrada, pois, segundo ele, haveria mistérios para resolver ainda naquele dia. Após todos terem passado para sala de refeições, iniciou-se o que poderia se chamar de uma “apresentação coletiva”. Tiago, que havia entrado por último na sala, fechou porta e caminhou até o meio do salão, onde todos conversavam alegremente. Tommy notou a entrada discreta de Tiago e piscou o olho para ele. O enigma já devia estar preparado, foi o que ele pensou.

No centro da sala, a pequena Mariana comentava espantada para o resto do grupo:

- Que lugar maravilhoso! Vejam a lagoa! Nada de poluição!

Sabrina Baltor riu do comentário da garota e acrescentou maldosamente:

- Qualquer lugar é lindo para você, Mariana. Também pudera! Você mora em uma casa torta!

Ao ouvir este comentário, Mitáfilo voltou sua atenção para Sabrina: “Onde é que ele havia ouvido falar em casa torta antes?”

Tommy, que acabara de servir mais uma rodada de Sirop de Cassis, declarou com ar de solenidade:

- Que bom poder receber vocês aqui hoje! Pena que ainda estejam faltando alguns membros da mailing list, não?

Tiago, que havia organizado a lista do encontro, divulgou a lista dos ausentes:

- Faltam a Daniela Fernandes e o Samael Darcangelo.

- A Dani não vem! – interveio Claudinha – fiquei sabendo que ela quebrou a perna em um acidente durante uma descida de rapel.

Após vários “que horror” e “rapel é coisa para loucos”, a conversa ficou girando em torno de esportes radicais, até que Sabrina Baltor resolveu mudar de assunto, retornando ao tema da beleza do lugar onde estavam:

- Tommy! Parabéns pelo seu Mitatório! O Tiago vivia falando deste lugar na mailing e ele tinha razão. Esse ambiente misterioso, essa aura… Outra pessoa que deve adorar isto aqui é a Luciana Freire, não é?

O sorriso apagou-se do rosto de Tommy. Ele baixou os olhos, respondendo:

- Infelizmente, Luciana não está mais por aqui. Ela resolveu sair do país… Faz dois meses desde que ela partiu para a Europa… Eu… Eu… Bem… A Europa é um lugar lindo, eu diria até que é o lugar perfeito para novos investimentos… É só não se apegar ao passado…

Nesse momento, a emoção tomou conta de sua voz, e Tommy mal conseguiu completar:

- Fiquem aqui com o Tiago, ele tem surpresas para vocês. Estarei na cozinha, preparando nosso almoço.

Assim que ele saiu da sala, Mitáfilo falou, esquecendo de disfarçar seu sotaque:

- Que baita furo, hein Sabrina? Você não sabia que Tommy e Luciana estavam namorando? A saída repentina da garota deixou o Tommy muito abalado…

O tempo foi passando, as conversas giraram em torno de todo o tipo imaginável de assunto. Conhecer as pessoas em carne e osso era muito, mas muito diferente do que ler suas mensagens pela tela de um computador.

Mariana quis verificar o andamento do almoço e foi para a cozinha fazer companhia para seu novo “tio” Tommy. As atenções na sala estavam voltadas para a camisa azul florida de Mitáfilo, onde se lia, em imensas letras amarelas: “Eu tomo chimarrão, e daí?”. Sabrina não conseguia entender como alguém podia tomar algo quente e amargo e ainda gostar da bebida.

Nesse momento, Adriano saiu discretamente da sala, indo em direção ao banheiro.

Mariana voltou com novidades. Seus olhos negros estavam mais brilhantes do que nunca, quando anunciou:

- O tio Tommy está fazendo um ensopado daqueles das histórias do Poirot!

Claudinha ficou curiosa com o tal ensopado, e, pedindo licença aos demais, saiu em direção a cozinha. Aproveitando a saída da moça, Tiago puxou o assunto:

-Mitá! E o Paulo Schreiner? Lembra? O maluco jurou que um dia ainda iria te colocar na cadeia!

Paulo Schreiner havia ganhado o título de “mala” da mailing. Enquanto esteve inscrito nela, reinara um clima de quase terror. O principal alvo de Schreiner sempre fora Mitáfilo e a coisa ficou séria quando Paulo acabou acusando Mitáfilo de assassinato. Pouco tempo depois, para alívio de todos, Paulo desaparecera da lista e ninguém nunca mais se teve notícias dele.

Sabrina interveio rapidamente:

- Psssst! Não diga nada sobre o “você-sabe-quem” aqui! A Claudinha é sobrinha dele!

- O quê? – Mariana parecia não acreditar.

- É verdade. – Adriano falou com sua voz grave, assustando Sabrina, que não percebera o retorno do gigante – Mas é melhor evitar esse assunto! A Claudinha detesta esse tio, parece que não se falam há anos.

Mariana não se dava por satisfeita:

- E como você pode saber disso?

Adriano ficou vermelho como um pimentão. Comentou em voz sumida:

- Eu e Claudinha namoramos por algum tempo…

Mitáfilo, que não perdia um lance por nada do mundo, concluiu:

- Então o S. de Claudinha S. Leite significa Schreiner! Era só o que faltava!

A conversa parou nesse ponto, pois Claudinha estava voltando da cozinha.

 

Capítulo Dois: Amor e Morte

Rio de Janeiro – sábado – 11:45

Claudinha ia começar a falar sobre algo, mas foi interrompida por um estridente alarme de carro que começou a tocar naquele instante. Mitáfilo reconheceu o som imediatamente:

- É o meu carro! Esperem um pouco que vou desativá-lo.

As conversas ficaram suspensas, enquanto todos observavam Mitáfilo abrir a porta da sala de refeições e dirigir-se para a mesa do hall. Após certa procura, ele anunciou:

- Ei! Cadê as chaves?

Dizendo isso, ele correu para fora. Sabrina, que foi a primeira a segui-lo, notou que o carro ainda estava no estacionamento, porém, reparou que Mitáfilo estava parado, mais branco que uma vela, olhando fixamente para o capo do Toyota. Ela seguiu seu olhar e viu aquilo.

Mariana e Adriano estavam mais longe da cena, mas também perceberam o que havia acontecido no carro de Mitáfilo. Mariana ia perguntar algo, mas a expressão séria e abalada de Adriano a impediu de falar. E o alarme continuava tocando. Claudinha, que havia chegado por último na cena, não conseguia ver o que todos olhavam no capo do carro de Mitáfilo. Ela caminhou até o lado de Adriano e olhou por cima do ombro de Sabrina…

- NÃÃÃÃOOOO!

O grito de Claudinha serviu como um balde de água gelada. O estridente alarme continuava tocando, acompanhado agora por uma confusão de vozes, com todos falando ao mesmo tempo. De repente, cessou o alarme. Tiago, estava parado na porta de entrada, com as chaves do carro de Mitáfilo na mão. Ele parecia não entender a gravidade da situação, pois perguntou sorrindo:

- Que grito foi esse? Vocês estragaram o enigma, sabiam?

- Quer dizer que você é o responsável por isso? – Perguntou Mitáfilo, livrando-se do nó que estava preso em sua garganta.

- Isso o quê? – Tiago perguntou, enquanto se aproximava do Toyota de Mitáfilo. Foi aí que ele pode ver o capo. Parou imediatamente:

- Ei! O que significa isso?

Mitáfilo. Com a paciência por um fio, comentou entre os dentes:

- Pensei que você pudesse me explicar!

- Olha só! É melhor contar tudo. Eu e tio Tommy bolamos um jogo para o Mitatório. É uma espécie de enigma lógico que agrada muito aos fregueses. É bem simples, pedimos que as chaves e bolsas fiquem sobre a mesa.

Após a entrada dos clientes na sala de refeições, eu apanho uma das chaves de carro com alarme e escondo no bolso. Funciona sempre, basta eu acionar o alarme com o controle lá da sala de refeições. Normalmente acontece isso: os convidados saem para o estacionamento e eu aproveito para esconder a chave em uma das bolsas.”

O jogo então é bem simples. Eu e tio Tommy somos ótimos nessa arte de montar enigmas lógicos! Pelo certo, vocês deveriam voltar para dentro, onde eu ia explicar que a chave estava escondida em uma algum lugar do hall de entrada e daria cinco pistas lógicas, do tipo: “o vaso chinês está a esquerda de onde está a chave”, etc..”

Quem acertasse antes onde estava a chave, ganharia o jogo e teria o prazer de se livrar do som do alarme! É uma idéia bem simples, bobinha até, mas vocês não imaginam como isso agrada os clientes!”

Tiago acabou sua explicação sobre o jogo, acrescentando:

- Agora! Isto! – e apontou para o capo do Toyota – Isto eu não sei explicar!

O capo do carro de Mitáfilo estava riscado. Alguém fizera riscos enormes com um prego. Seria apenas obra de algum vândalo que teria invadido o estacionamento, exceto pelo que estava riscado no carro. Não eram riscos aleatórios, havia um padrão, podia-se ler claramente duas letras: “PS”.

Foram essas letras riscadas que paralisaram a todos. P e S, algo que os fazia lembrar de uma pessoa em especial…

Claudinha, muito nervosa, comentou:

- O que vamos fazer agora?

Uma nova voz respondeu. Uma voz clara, com uma entonação perturbadora:

- É melhor entrarmos. Talvez o dono desse carro queira telefonar para a polícia…

Só então foi percebida a presença de um estranho no estacionamento, alias, todos perceberam também que um Opirus preto estava estacionado logo perto da entrada. Ninguém havia percebido a chegada desse carro. O dono dele vestia preto. Sabrina, que já conhecia o estranho, rompeu o silêncio:

- Samael! Finalmente você apareceu! Olha só o que fizeram no carro do Mitáfilo! Você viu quem fez isso?

O convidado atrasado pareceu refletir bastante antes de responder. Um silêncio pesado caiu sobre o local. Um persistente rolo de capim passou rolando entre ele e os demais. Por fim, Samael respondeu:

- Infelizmente, não. Acabei de chegar. Creio que vocês nem perceberam devido ao choque. Só escutei a explicação de Tiago e vi o estrago…

Mariana, que estava emocionada com o “fantástico” acontecimento, olhou fixamente para Samael. Havia algo de errado na cena, mas o que seria? Ah! Sim! Era a posição onde estava Samael. Ele estava muito perto do canto do estacionamento, como se estivesse vindo da parte lateral do Mitatório e não como se estivesse vindo de seu próprio carro… Seria apenas imaginação? Ela achou melhor não falar nada, pois o homem a assustava com seu olhar penetrante.

Quando o grupo se encaminhou novamente para dentro do restaurante, Mitáfilo notou algo peculiar em Samael. Este andava muito próximo de Adriano, de modo que a sombra de Samael não era refletida no chão, sendo encoberta pela do gigante. Mitáfilo lembrou um antigo ditado: “O diabo não tem sombra.”, e em seguida fez o sinal da cruz para se benzer.

Antes de entrar novamente no Mitatório, Adriano olhou para o letreiro acima do portão e pensou: “Restaurante Mitatório, hein? Aqui tem marosca…”

De volta a sala de refeições, Mitáfilo dirigiu-se ao telefone. Sabrina, percebendo o nervosismo de Claudinha, ofereceu:

- Você quer um copo da água? Espere um pouco que vou buscar… Ei! Que cheiro de queimado é esse?

Sabrina disse isso enquanto entrava na cozinha. Ela entrou, deu um passo, parou estática, voltou correndo para a sala e talvez fosse gritar algo, mas não teve tempo. Caiu desmaiada.

O pânico foi geral. Mitáfilo correu para acudir a amiga, enquanto Adriano, Tiago e Samael corriam para a cozinha. A cena parecia irreal. O ensopado queimava em cima do fogão. Deveria ter sido tirado do fogo há algum tempo. Isto é, ele teria sido tirado, se o cozinheiro ainda pudesse fazer isso, mas os mortos não cozinham.

Caído aos pés do fogão, ainda segurando uma colher de pau na mão, estava Tommy. De sua nuca corria um grosso filete de sangue, proveniente de um pequeno orifício. Não havia dúvidas, Tommy Ruas estava morto, assassinado à bala.

Samael conseguiu falar por primeiro:

- Não toquem nele! A polícia tem que fazer a perícia!

Tiago soluçava, encostado na parede:

- Meu Deus! Tio… Não pode ser! MORTO! Como? Por quê? Isso não é verdade…

Adriano bloqueou a entrada de Claudinha e da garota Mariana, dizendo:

- Não entrem! É uma cena horrível! Mitáfilo! Ligue para a polícia depressa!

- O que aconteceu? – gritou Claudinha.

- Tommy está morto! Levou um tiro!

Mariana estava eufórica. Era o dia mais emocionante de sua vida. Já Claudinha, recusava-se a acreditar naquilo tudo. Preferiu se concentrar em Sabrina, que Mitáfilo havia deixado aos seus cuidados, enquanto telefonava para a polícia.

- Tenho sais de cheiro na minha bolsa! – exclamou Claudinha – Mitá! Sais de cheiro podem acordar a Sabrina?

Mitáfilo, que esperava ser atendido no telefone, fez sinal de positivo para Claudinha, e ela então correu para o hall de entrada, indo em direção a sua bolsa.

Adriano, que continuava barrando a entrada da cozinha, olhou para seus pés e reparou em um paninho azul, que estava bem onde não deveria estar. Ele abaixou-se para apanhá-lo, mas Samael interveio:

- Eu também já vi esse pano! Deixe-o aí mesmo! Pode ser uma pista…

Mitáfilo, que já largara o telefone, correu em direção a desacordada Sabrina e gritou, irritado:

- O xerife Poio e o delegado Quin já estão vindo para cá. Mas onde diabos estão os sais de cheiro? Claudinha? CLAUDINHA? DEPRESSA!

No entanto, seu grito foi em vão. Ao longe, escutou-se o ronco de um carro arrancando a toda velocidade. Claudinha estava fugindo do local do crime…

Capítulo Três: Explicações

Rio de Janeiro – terça – 18:00

O funeral de Tommy havia sido manchete em todos os jornais da cidade. O crime escabroso era o assunto das rodas de bar. Claudinha era a principal suspeita, pois ainda estava desaparecida. A polícia já estava a sua procura.

Tiago Ruas foi conduzido até uma sala enorme. Ele percebeu a fina decoração do ambiente, que lembrava claramente o Mitatório. Mesas de mogno, uma estante com dezenas, ou melhor, centenas de livros. Tiago percebeu que, na maioria, eram livros de mistério. No entanto, o que mais chamou a atenção foi um enorme biombo chinês, instalado em um dos cantos da sala.

O dono do luxuoso escritório estava sentado atrás de uma imensa mesa, cheia de entalhes de madeira. Com um aceno, ele convidou Tiago:

- Sente-se ai, meu amigo! Beba um cálice de Sirop de Cassis. Creio que a agitação foi muita nas últimas horas, não?

Tiago aceitou o convite, e respondeu:

- Pois é… Samael! Todo o interrogatório da polícia! O enterro do Tio Tommy! Que tragédia…

Tiago baixou os olhos por alguns momentos, depois, olhou diretamente para Samael e perguntou:

- Por que você me chamou aqui?

- Bem, sem rodeios, Tiago. Gosto de ser objetivo! Quero metade do Mitatório!

- O quê? – Tiago levantou-se num acesso de cólera – Como você tem coragem de vir me falar uma coisa dessas agora! O corpo do meu tio ainda nem esfriou!!!

- Cale-se! – Samael ordenou – Você é o herdeiro natural de Tommy, não? Então é simples, você me dá metade do restaurante em sociedade e pronto!

- E porque eu daria metade do Mitatório para você?

- Porque eu tenho uma pequena história para te contar. Ouça:

Ontem eu cheguei ao restaurante antes que o alarme disparasse. Eu já estava quase entrando, quando ele disparou. Voltei meus olhos para o Toyota e vi as letras “PS” no capo. Instintivamente, corri para a lateral do prédio. Não seria bom que me vissem chegando logo na hora que um alarme disparava e, ainda por cima, era o alarme de um carrão riscado daquela forma tão sugestiva…”

Pelas janelas laterais, pude ver o pessoal saindo aos poucos, exceto você, não é Tiago? Pude ver claramente quando você apareceu no hall de entrada, com a arma na mão. Não consegui identificar o modelo, mas você deve ter pago uma nota para adaptar o silenciador.”

Após esconder a arma em uma das bolsas, você tirou a chave do Mitáfilo do bolso e foi para a entrada, desempenhar seu papel de o-que-está-acontecendo-aqui? – Pelos fatos posteriores, agora sei que você escondeu a arma na bolsa de Claudinha. Muito bem bolado!”

Tiago escutou tudo petrificado. Após assimilar as palavras, desafiou:

- Você não pode provar nada!

- Claro que não! Mas posso contar minha história para a polícia e você sabe como é a nossa polícia, não sabe? Eles estão no encalço de Claudinha apenas porque ela foi ingênua e fugiu. No entanto, logo vão perceber que você é que se beneficiou com a morte de Tommy.

- Veja bem – continuou Samael – Eu não quero te entregar para a polícia. Não ganho nada com isso! Quero apenas me tornar seu sócio no Mitatório! Veja meu escritório! Eu também adoro mistérios, como você! Sejamos sócios! Que importa um assassinato na história do Mitatório? Só vai servir para atrair mais clientes!

Tiago olhou novamente para a decoração do local. Demorou-se um pouco mais, fitando o biombo chinês. Certamente, ele iria precisar da ajuda e do dinheiro de Samael para continuar com seu precioso Mitatório. Além do mais, desde que cometera o crime perfeito, ele sentia uma estranha necessidade de contar para alguém como ele fora esperto! Samael, famoso na mailing por sua falta de escrúpulos, sem dúvida era o cúmplice perfeito.

Tiago falou:

- Eu amo o Mitatório! Procure entender, desde que tio Tommy montou o local, eu passei a maior parte do meu tempo lá, dando duro, batalhando pelo “lugar do mistério”! Ah! Foram dias felizes! Tudo estava perfeito, apesar das insistências para que eu continuasse estudando teatro… O que as pessoas entendem sobre as motivações dos outros? O que eu queria era estar lá, naquele ambiente de magia e mistério, como se eu fizesse parte de um dos livros da Dama do Crime!

Tudo teria continuado perfeito, se a namorada do tio Tommy não tivesse partido para a Europa! Ah! Que porcaria! Tio Tommy não se conformava com a situação, e passou a falar cada vez mais em novos investimentos… Europa é um bom lugar… Cuide de sua vida Tiago, não dependa do Mitatório!”

Ora! O canalha ia vender tudo para ir atrás do seu amor. Cretino! E eu? O que eu podia fazer?”

Foi na própria mailing list que encontrei a inspiração! Lembra daquela frase que o Pete Death sempre citava? Aquela que dizia que ninguém pode dizer se é ou não é um assassino, até ter a chance real de cometer um crime?”

Pois foi o que eu pensei! Por que eu também não podia cometer um crime? Será que na hora H eu teria coragem de puxar o gatilho?”

Samael interrompeu:

- E foi aí que você bolou o plano, não foi?

- Lógico! Aproveitei o encontro do pessoal. Elaborei a lista de convidados, o Mitáfilo e a Claudinha eram presenças indispensáveis!

Naquela manhã, fui o último a entrar. Na verdade fiquei para trás, para poder riscar as letras “PS” no carro do Mitáfilo. Eu sabia o efeito que aquilo iria causar. No momento oportuno, acionei o alarme. Enquanto todos corriam para fora, fui até a cozinha. Tio Tommy achava que o que acontecia era a inocente brincadeira do enigma e nem se perturbou, concentrado que estava em seu ensopado. Retirei um lenço azul de meu bolso, e com ele apanhei a arma que eu previamente havia escondido embaixo de meu material de estudo para o teatro.”

Foi nesse momento que percebi que eu realmente podia matar alguém! Alias, no momento mágico em que disparei a arma, sem sequer tremer, toda a minha vida fez sentido! Todos os livros de mistério que eu li! Todos os enigmas que eu bolei! Nada daquilo pôde se comparar ao prazer de cometer um crime!”

Entenda bem, Samael! Esse é o nosso sonho secreto! Todos que estão na mailing, todos que adoram mistério. O que querem eles? Emoção! Essa é a resposta! E matar é tão fácil… E tão emocionante!”

Samael, que ouvia a tudo impassível, falou:

- Se me permite dizer, a idéia do lenço azul foi fantástica! Você impediu que suas impressões digitais ficassem na arma e deixou o lenço no meio do caminho, para aumentar a confusão, caso isso fosse necessário. Foi assim, não?

Tiago retornou ao tema “como-fui-esperto” e falou emocionado:

- Perceba que eu não pus o lenço junto com a arma na bolsa de Claudinha. A primeira reação quando se encontra um objeto estranho entre nossas coisas é apanhá-lo na mão para vê-lo de perto. Se ela visse também o lenço, poderia lembrar de apagar impressões digitais. A idéia era que a arma ficasse escondida em sua bolsa e que a polícia a descobrisse… O carro riscado com PS… Tudo confuso, um mistério apontando para a sobrinha de um homem desequilibrado.

Mas a sorte está do meu lado, Samael! Claudinha foi buscar os sais de cheiro e encontrou a arma! Aposto que até a segurou nas mãos! Deve ter pensado que o tio violento, após riscar o carro, queria incriminá-la! Desesperada, ela resolveu fugir! Hehehe”

O riso de Tiago era de puro prazer. Samael ergueu seu cálice com Sirop de Cassis, e propôs um brinde:

- Ao crime!

Tiago ergueu seu cálice e concluiu:

- Ao crime! Seremos grandes sócios, Samael! Você tem os mesmos gostos que eu! Percebi isso logo que vi esse biombo chinês ai no canto! É uma cópia idêntica daquele da história da Agatha, não? “Um cadáver atrás do biombo”, é esse o nome, não é?

- Que engraçado você comentar isso, meu caro Tiago! Esse é mesmo um biombo igual ao descrito na história, mas você deve saber que, se um biombo pode ocultar um cadáver, também serve para ocultar pessoas vivas…

Ao ouvir isso, Tiago olhou diretamente para o biombo, já sabendo o que esperar… Duas pessoas saíram de trás dele. Samael falou em um tom muito formal:

- Permita-me apresentar-lhe estes cavalheiros. São o Xerife Poio e o Delegado Quin Linhares. Creio que eles tem algo para você…

Enquanto o Xerife Poio sacava um par de algemas e se aproximava de Tiago, o delegado Quin falou solenemente e em voz clara:

- Tiago Ruas! Você está preso pelo assassinato de seu tio, Tommy Ruas. Você tem o direito de permanecer calado…

FIM

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Fade to Black

Junho 10, 2008 at 11:41 pm (Contos) (, , )

PARTE I – O CASO

Stylesford é uma mansão de aspecto vitoriano, encravada na região central da Inglaterra. Qualquer pedestre que vislumbrasse sua bela e antiga fachada naquela tarde de sol, estranharia a rápida melodia de rock ‘N’ roll que vinha de seu interior. Na verdade, a música alta incomodava até mesmo alguns moradores da mansão. Richard Jones comentava irritado:

- Veja bem, Paul! É um absurdo esse noivo que nossa irmã arranjou! Um brasileiro cabeludo que passa o dia na sala de música, sempre ouvindo esse lixo!

O irmão balançou a cabeça, concordando:

- Tem razão! E o pior é que ele parece ouvir sempre essa música triste. “Fade to Black” não é muito apropriada para o clima em que estamos vivendo. Imagine só! Uma música que fala sobre suicídio!

Paul Jones, o irmão mais velho, tinha razão ao falar. Desde a morte de seu pai, ocorrida há um ano, as coisas iam de mal a pior em Stylesford. Infelizmente, Vitoria Jones, viúva do Coronel Jones, sofria de psicose maníaco-depressiva. Sua saúde mental era bastante instável, garantida apenas a base de duas capsulas de Lithium que ela precisava ingerir todas as noites.

Mesmo com o tratamento, Vitória estava com a saúde muito abalada. Durante a fase “maníaca” de sua doença, distribuía doações vultuosas da fortuna que o Coronel juntara durante sua vida. Já nas fases depressivas, era preciso muito cuidado para evitar que a angústia a levasse ao suicídio. Felizmente, o Lithium mantinha a situação em um equilíbrio estável.

A filha mais nova, Letícia, sempre havia sido a pessoa “alto astral” da casa. Seus belos olhos azuis combinavam perfeitamente com seu corpo suave, cheio de curvas. Sua delicadeza e determinação elevavam o ânimo de todos, principalmente o de sua mãe doente. No entanto, até mesmo Letícia andava tristonha e depressiva nas últimas semanas. Não havia adiantado nem mesmo trazer Roberto da Costa, o brasileiro que roubara o coração da moça, para passar suas férias na mansão da família Jones. Por algum motivo, Letícia continuava triste e deprimida, passando a maior parte do tempo trancada na sala de música com Roberto, ouvindo “Fade to Black” e coisas do tipo.

Paul Jones, 25 anos, alto e forte, notório gastador e aventureiro, sentia-se irremediavelmente preso àquela casa. Ele temia o pior, ou seja, sua mãe doando toda a fortuna para alguma entidade filantrópica. Ele odiava o irmão mais novo, que na sua opinião não passava de um pintor fracassado e covarde. O pior de tudo era ter que viver sob o mesmo teto, sem verba para poder sair e conhecer o mundo. Se ao menos sua mãe morresse… Ele comentou com Richard:

- Do jeito que vai, logo não haverá mais fortuna alguma por aqui…

Richard estava perdido em seus próprios pensamentos e falou em um tom irritado:

- Odeio esse cara que Letícia trouxe para cá. Se ao menos eu tivesse grana para me mandar daqui. Se ao menos…

A única pessoa na casa que parecia se importar mais com Vitória Jones do que com o seu dinheiro era a velha e fiel empregada Helena Polanski. O Coronel Jones e Vitória deram todo o auxílio que Helena precisou quando teve que fugir da Polônia, durante o obscuro período da Guerra Fria. Desde aquela época, Helena havia jurado fidelidade aos patrões. Vendo os dois irmãos cochicharem baixinho, ela pensou revoltada: “Canalhas! Só querem beber o sangue da Sra. Jones. Ah! Mas isso eu não vou permitir! Jamais!”

Naquela noite, precisamente às 21:30, a Sra. Jones, que nem havia tocado em seu jantar, apanhou uma xícara de chá, levantou-se e disse:

- Preciso tomar uma decisão muito importante meus filhos. Vou para meu escritório e não quero ser perturbada. Helena! Leve mais uma bandeja de chá para mim daqui a uma hora.

Ela ia saindo da sala. Uma triste e alta figura carregando tremulamente sua xícara de chá. Parou por um instante, virou-se e acrescentou:

- Não se preocupem crianças, vocês vão ficar bem.

Richard e Paul se entreolharam. O que será que viria agora? Mais doações? Já Letícia pareceu nem ouvir as palavras da mãe, perdida em sonhos de sua vida futura com Roberto.

A empregada começou a retirar a mesa. Declarando não estar com ânimo para nenhuma conversa, Letícia subiu para seu quarto. Roberto foi para a sala de música. Não demorou muito, e “Fade to Black” ressoou pela casa.

Ao ouvir os primeiros acordes, Paul ficou furioso. Pareceu tomar uma decisão naquele momento. Levantou-se e saiu rapidamente. Richard ficou sozinho, perdido em pensamentos.

Durante a hora que se passou, uma discreta, porém intensa movimentação tomou conta da mansão.

Às 22:30, Helena bateu na porta do escritório de sua patroa, não obtendo resposta alguma, ela girou suavemente a maçaneta e entrou no recinto.

O inspetor Schreiner, encarregado pela Scotland Yard para conduzir a investigação sobre o assassinato da Sra. Vitória Jones, comentava com seu assistente:

- Nem dá pra acreditar numa coisa dessas! A mulher foi apunhalada pelas costas e ainda por cima levou um tiro! Vamos recapitular novamente o caso!

Pela milésima vez, O assistente tornou a ler as anotações:

- Às 22:30 da noite passada, a empregada Helena Polanski encontrou sua patroa, Vitória Jones, morta no escritório de sua casa. A Sra. Jones foi vista com vida pela última vez às 21:30, quando se dirigiu ao escritório. Era hábito da falecida proceder assim todas as noites.

“A Sra. Vitória Jones levou um tiro, disparado por uma arma com silenciador. Esta pistola foi retirada da sala de armas do Coronel Jones, que em vida fora um colecionador fanático por material bélico. O tiro foi disparado de fora da casa, atravessou a grande janela veneziana e alojou-se no peito da vítima. Apesar de estar sentada na cadeira ao lado da mesa de chá, ou seja, de fronte para a veneziana, a vítima parece não ter notado a aproximação do assassino.”

- E a arma já foi encontrada? – perguntou o inspetor.

- Sim senhor! Estava escondida, sem impressões digitais, em uma das gavetas da cômoda do quarto de Richard Jones.

- Francamente! Que tentativa grosseira de se incriminar alguém!

- Concordo senhor. Bem, continuando… A vítima podia já estar morta quando o disparo foi efetuado. Havia um ferimento profundo em suas costas, proveniente de um punhal. Sabemos que foi um punhal, pois o mesmo foi entregue ao policial Simpson por Roberto da Costa, brasileiro, que está passando suas férias aqui nesta casa. Ele é noivo de Letícia Jones.

“Roberto diz ter encontrado o punhal logo na entrada de seu quarto. Intrigado, ele apanhou o punhal do chão e reparou que havia sangue nele. Ele estava olhando para o punhal, quando o grito da empregada alarmou toda a casa. Logo, todos se encontraram no escritório, onde a empregada gritava desesperada e apontava para a cena dantesca da Sra. Jones morta…”

Os dois investigadores se olharam. Brasileiro… guitarrista e cabeludo… Provavelmente dando o golpe do baú… Somente suas impressões digitais no punhal… O inspetor comentou:

- Pode ter sido um plano para confundir todo o caso. Afinal, se a empregada não tivesse recebido ordens para levar um chá para a vítima às 22:30, o crime só teria sido descoberto na manhã do dia seguinte.

- Não senhor. A filha mais nova, Letícia, era o “anjo da guarda” da Sra. Jones. Toda a noite, às 23:00, a garota tinha que se certificar que a mãe ingeria o Lithium. Toda pessoa que é maníaco-depressiva, como a sra. Jones era, precisa ser vigiada nesse ponto, pois é comum que, na fase maníaca, o doente se recuse a tomar o remédio. Dessa forma, se a empregada não tivesse descoberto o crime, meia hora depois a filha o teria feito.

O inspetor sempre se impressionava com a eficiência de seu assistente. “Esse garoto vai longe…”. No entanto, não era o momento de se perder em devaneios. Ele seguiu perguntando em tom profissional:

- Já averiguou o que cada um fez entre 21:30 e 22:30?

- Sim. Ninguém ouviu nada, ninguém viu nada! Paul diz que ficou lendo na biblioteca. Richard e Letícia estavam em seus quartos, indispostos. A empregada Helena estava lavando os pratos na cozinha. Por fim, Roberto ficou na sala de música, colada ao escritório. Ele nega ter ouvido qualquer ruído por estar com o aparelho de som ligado. Logo após às 22:30, ele subiu para seu quarto. Foi quando encontrou o punhal e ouviu os gritos da empregada.

Nesse ponto, o assistente Gerard fez uma pausa significativa. O inspetor acompanhou o raciocínio, mas preferiu abordar outro tema:

- E quanto a herança?

- Há um testamento antigo, feito ainda quando o Coronel era vivo. A herança ficou dividida em três partes iguais, uma para cada filho. Há uma quantia de dez mil libras para a empregada e mais cem mil libras em doações. No final das contas, cada irmão vai receber cerca de 5 milhões de libras.

- Belo motivo para um crime. – disse o inspetor, assobiando.

- Há um ponto interessante aqui, senhor! Encontramos vestígios de um papel grosso, do tipo que se usa em testamentos. Este papel foi queimado na lareira do escritório. Ainda não é época de acender a lareira, por isso suspeito que tenha sido queimado ontem à noite, tão depressa que alguns palitos de fósforo chegaram a cair da caixa, ficando espalhados ao lado da lareira.

- Isso é no mínimo peculiar. Será que era um testamento novo? Conseguiram recuperar alguma parte?

Somente algumas palavras escassas, a letra era da vítima, já verificamos. Aqui está a lista das palavras recuperadas:

“a vida parece vai esm…”

“o vazio me enche…”

“preciso do….. …. libertar.”

O inspetor analisou as frases e comentou:

- Que tipo de testamento pode ser esse? Bem, de qualquer modo, temos que determinar se ela morreu devido a apunhalada ou devido ao tiro…..

Em resposta a questão do inspetor, uma nova voz fez-se ouvir na sala:

- Nem por uma causa, nem por outra. Ela morreu devido a ingestão de uma alta dose de cianureto de potássio, presente na xícara de chá que ela bebeu no escritório.

Quem disse isso foi o Dr. Shephield, médico legista que acabara de entrar na sala do inspetor. Por falar no inspetor, seus olhos estavam alarmantemente esbugalhados. Mal conseguiu balbuciar:

- Pelo amor de Deus! Que loucura é essa? Isso é impossível!

- Nem tanto… – continuou o médico. – O fato da vítima já estar morta explica a quase ausência de sangue nos ferimentos provocados pela bala e pelo punhal. Provavelmente, ela tomou o chá e caiu, com a cabeça pendida para o lado. Quem atirou, pelo lado de fora da casa, só deve ter visto a pobre mulher inclinada, e pensando que ela dormisse sentada, atirou no peito. Isso fez seu o corpo da vítima tombar um pouco para frente. Por fim, quem a apunhalou nem perdeu tempo observando nada. Apenas entrou na sala, viu a pobre mulher inclinada na cadeira e… Aproveitou a oportunidade para cravar o punhal e fugir rapidamente!

- Que covardia! Atacar uma mulher pelas costas! – o inspetor estava indignado – Bem doutor, não me diga que o senhor achou MAIS alguma coisa na autópsia? Juro por Deus que se também houver algum traço de arsênico ou estricnina no sangue, eu mudo de profissão!

O Dr. Shephield ficou muito sério. Sua resposta foi precisa, como de costume:

- Fique tranqüilo. Não encontrei absolutamente mais nada no sangue da Sra. Jones. O motivo da morte foi mesmo o cianureto. Também achei vestígios do veneno na xícara de chá que ela levou para o escritório. Vocês agiram muito bem ao enviar tudo para análise. A Scotland Yard não deixa escapar nenhum detalhe hoje em dia.

O assistente Gerard, pensando em promoções, falou logo:

- Havia um vidro com cianureto de potássio entre os apetrechos de jardinagem. O Coronel Jones comprou o veneno uma vez para dar fim a um ninho de vespas.

O inspetor Schreiner levantou-se e comentou animado:

- Vamos abordar primeiro a questão do punhal.. Quero ver o que acontece quando pressionamos um certo brasileiro…

Roberto da Costa estava desesperado. Nem as carícias amáveis de Letícia podiam consolá-lo:

- Calma amor. Ninguém vai prender você. A polícia só está blefando…

- Que nada! Eu ouvi as insinuações do inspetor. Aquele monte de perguntas sobre as minhas atividades no Brasil! Eles me querem como bode expiatório! Eu não apunhalei sua mãe! Você acredita em mim, não?

Letícia respondeu com o tom de voz que usaria para acalmar uma criança:

- Eu sei, querido. Afinal, por que você faria uma coisa dessas? Fique tranquilo amor, eu acredito em você!

Thomas Gerard estava indo ao encontro de sua namorada. O dia havia sido extremamente estafante. O caso que estava investigando parecia não progredir muito. Nunca em sua carreira se deparara com tamanho enigma. O pior era ter que trabalhar seguindo os métodos do inspetor Schreiner, que não era propriamente um investigador de talento. O lema do inspetor parecia ser: “acusar todo mundo até que o culpado confesse…”

Ele chegou ao local marcado para o encontro, casualmente em frente a uma loja de cd´s. Nem sinal de sua namorada. Em um súbito impulso, Gerard entrou na loja. Havia algo que ele precisava tirar a limpo. Dirigindo-se ao vendedor, perguntou:

- Com licença. Estou procurando um cd com uma música de rock ‘N’ roll muito famosa chamada “Fade to Black”. Conhece?

O vendedor, que portava um crachá ponde se podia ler “Samael Darcangelo” não conseguiu disfarçar o espanto e falou entusiasmado:

- Quem não conhece esse clássico! Uma das mais famosas baladas do heavy metal! blá blá blá… – seguiu-se uma explicação de pelo menos meia hora sobre a importância da banda Metallica, sua história, etc., etc. E muito etcs. Na seqüência.

Gerard testou sua paciência ao máximo, mas chegou num ponto em que não resistiu mais e interrompeu o falatório:

- Claro… claro… está bem! Mas eu só estou precisando dar uma olhada na letra dessa música.

O vendedor apanhou então um cd com uma estranha capa, misturando raios e uma cadeira elétrica, e alcançou-o para Gerard. Lá estava a letra:

“A vida parece, vai esmorecer,

a deriva, cada vez mais longe…”

Naquele instante, Thomas Gerard percebeu tudo. Todos os fatos se encaixaram na ordem exata. Com certeza, sua promoção estava a caminho! Sua namorada, que chegava naquele instante, não conseguiu entender por que foi agarrada, jogada ao ar, abraçada e beijada efusivamente.


PARTE II – SOLUÇÃO

O inspetor Schreiner, ainda sob o efeito da fantástica revelação do caso, comentava com o seu ex-assistente, agora também inspetor Gerard:

- Ainda não consigo entender claramente tudo que aconteceu! Você deve ter usado uma bola de cristal para seguir a pista certa! Se nós não tivéssemos pressionado a empregada…

Thomas Gerard ajeitou-se na cadeira do pub local, onde o alto escalão da Scotland Yard costumava se reunir ao final do dia para comentar os assuntos do momento. Havia pelo menos cinco inspetores de olho na conversa, também ansiosos para entender direito o que havia ocorrido em Stylesford. Pacientemente, o inspetor Gerard pôs-se a recapitular todo o caso:

- Às 21:30, Vitória Jones entra no escritório com uma xícara de chá na mão. Ela está numa grave fase depressiva de sua doença. Mais do que isso! Ela está pensando em se matar! Ela senta na cadeira perto da janela e escreve a sua carta de despedida. O conteúdo da carta é a letra de “Fade to Black”, que andava tocando muito naquela casa nos últimos dias. Tratam-se de palavras de despedida, por não mais suportar o peso da vida…

“Ao terminar a carta, ela coloca cianureto de potássio, que havia previamente retirado do material de jardinagem, em seu chá. Em seguida, ela bebe o líquido envenenado e adeus Sra. Jones.”

“No entanto, Paul Jones estava imaginando que sua mãe faria um novo testamento em benefício dos pobres e resolveu agir antes que aquilo ocorresse. Ele apanhou a pistola com silenciador, aproximou-se furtivamente pela janela e, julgando que a mãe dormisse na cadeira, disparou… Canalha! Em seguida, escondeu a arma no quarto do odiado irmão, Richard.”

“Porém, Richard também queria se livrar da mãe. Sendo um notório covarde, ele invadiu furtivamente o escritório, provavelmente minutos após a “atuação” de Paul, e atacou a mãe pelas costas, fugindo em seguida. Maldito seja esse covarde! Foi ele quem deixou o punhal na entrada do quarto de Roberto para tentar incriminá-lo.”

“Finalmente, a empregada entra no escritório. Helena Polanski vê sua amada patroa morta. Aproxima-se do corpo e percebe os ferimentos. Imediatamente, nota que ela foi assassinada e sabe quem foram os malditos que fizeram isso! E mais do que isso! Ela vê também a carta ao lado do corpo, junto um vidrinho que ela já havia visto antes e sabia que continha veneno! Então, ela lê a carta e percebe que sua patroa cometeu suicídio!”

“Ah! Mas os canalhas vão ter que pagar de algum modo! Rapidamente, ela queima a carta e esconde o vidro de cianureto. A polícia que investigue! Com uma marca de punhal e outra de bala, certamente ninguém vai procurar veneno no sangue da patroa. E, se acharem, ninguém deve saber que ela se matou. Os dois irmãos tem que sofrer pelo que fizeram!”

Nesse ponto, o inspetor Schreiner interrompeu:

- É! Mas infelizmente para Helena, a perícia do Dr. Shephield foi minuciosa e você matou a charada! Além disso, ela se esqueceu da xícara de chá! Foi só pressionar um pouco que ela confessou tudo! Coitada! Não posso deixar de inocentá-la. Ela tentou nos enganar, mas no fundo queria apenas que aqueles miseráveis pagassem de alguma forma!

O novo inspetor aproveitou a deixa:

- No entanto, aqueles dois canalhas não vão se livrar tão fácil assim! A Scotland Yard vai tentar levá-los ao tribunal, afinal de contas, eles tiveram a intenção de matar! De qualquer forma, a imprensa já caiu em cima dos dois! Vai demorar muito antes que tenham paz para aproveitar o dinheiro!

Pensativo, o inspetor Schreiner concluiu:

- A única que presta ali é a filha mais nova. Parece que ela e o tal Roberto partiram juntos para um paraíso tropical. Tomara que a linda moça aproveite bem o dinheiro que recebeu. Poucas pessoas neste mundo merecem a felicidade…

Letícia Jones estava observando seu amado noivo mergulhar nas ondas azuis do mar caribenho… Um rolo de capim passou pelo cenário, enquanto Letícia refletia e concluía que ela e Roberto tinham uma bela vida juntos pela frente e cinco milhões de libras garantiriam o futuro.

Ela segurava na mão um pequeno frasco, sorria e pensava consigo mesma:

“Que tolos! Paul sempre foi intrépido e Richard sempre foi um covarde! Não me admira que tenham agido daquela forma tosca! Quase colocaram tudo a perder! Bem feito! Que a imprensa os massacre por quase arruinarem os meus planos! Será que meus irmãos nunca perceberão que a sutileza é a melhor arma?”

Sim, e como Letícia havia sido sutil! Primeiro fingir depressão e fazer o clima da casa ficar péssimo. Depois, trazer o noivo para dentro do lar e insistir em ouvir sempre aquela música sobre morte e suicídio… Pobre Roberto! Tão ingênuo. Ela dizia que “Fade to Black” era a única coisa que a animava um pouco. Será que ele não podia pô-la para tocar de novo?

A velha mãe, de saúde frágil, não demorou muito até entrar numa fase depressiva de sua doença. Uma daquelas fases em que havia grande risco de suicídio… Um risco muito ampliado, devido ao ambiente que sua filha estava cuidadosamente criando nas últimas semanas.

É claro que, se sua mãe estivesse tomando aquela alta dose de Lithium todas as noites, certamente o risco de suicídio seria bem menor. Isto é, se estivesse tomando, pois o que Letícia tinha em suas mãos agora era o último frasco de Lithium, que ela havia habilmente furtado logo após a descoberta da morte. Neste frasco, havia apenas pílulas de água com açúcar. Uma pequena, mas brilhante idéia… Uma idéia que valeu cinco milhões de libras.

“É engraçado…” – pensou Letícia – “A polícia chegou a ter o caso nas mãos! O Dr. Shephield foi muito eficiente ao descobrir cianureto de potássio no sangue. Mas, ao mesmo tempo, ninguém notou o elemento que faltava! Tivessem tido mais atenção e teriam percebido que não havia nenhum traço de Carbonato de Lithium no corpo de minha mãe.”

 

F I M

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O Anjo Mais Belo

Junho 2, 2008 at 11:04 pm (Contos) (, , )

 Capítulo I

“Cannot kill the battery
Cannot kill the family
Battery is found in me
Battery”

(J. Hetfield – L. Ulrich)

Daniel Roberto Litwin era um belo exemplar da raça humana. Louro de olhos azuis, esbelto e forte, no auge dos seus 23 anos, era sempre atencioso e gentil para com todos. Um estudante universitário que obtinha sempre as melhores notas, um futuro advogado, enfim, o sonho de qualquer garota. Nenhuma delas, no entanto, sequer podia imaginar que por trás daquela bela imagem, escondia-se um cruel serial killer

Na verdade, nem ele mesmo poderia dizer com certeza o que ocorreu e como as coisas haviam chegado àquele ponto, mas as mudanças em sua personalidade começaram quando ele saiu com as primeiras mulheres. Certa vez, quando brigou com uma delas, sentiu um estranho prazer ao apertar o braço da garota. A dor que ela sentia dava para Roberto um prazer maior do que o proporcionado por qualquer tipo de beijo.

No início, Daniel até tentou refrear seus instintos, mas logo sucumbiu aos perversos desejos que sentia. Desde então, nunca mais ficou com uma namorada por mais que três meses, pois tudo acabava na primeira noite que passavam juntos. Seu comportamento sexual cada vez mais agressivo intimidava e apavorava suas acompanhantes, mas ele era indiferente ao terror que causava. O princípio era simples: quanto mais dor elas sentissem, melhor.

O rapaz era cuidadoso e jamais ficava com garotas conhecidas na sociedade, preferindo sempre as mais tímidas, incapazes de espalhar “estórias” absurdas a respeito desse moço sério e estudioso.

O tempo foi passando e Daniel livrou-se de suas inibições e de seus medos, estava confiante em si mesmo, tornou-se cada vez mais ousado, até que um dia, ocorreu o inevitável.

Karen era uma ruivinha de apenas 15 anos, dessas que já começam a freqüentar festas desde muito cedo, tentando provar mais para si mesmas do que para os outros que já são mulheres. Ela já saíra duas vezes com Daniel e naquela noite ele a levou até um lugar deserto, na periferia paulistana.

“Feche os olhos, tenho uma surpresa para você….”

Excitada, ela obedeceu, mas ao invés de um doce beijo, recebeu um violento soco que a desacordou imediatamente.

Daniel era realmente muito precavido e já havia pensado em tudo. Arrastou Karen para fora do carro, antes de esfaqueá-la. A sensação que sentiu quando a faca penetrou no abdômen daquela pequena garota indefesa foi indescritível. Sem dúvida, mil noites de amor não se igualariam àquele momento.

Foi muito fácil ensacar e depois jogar o corpo em uma das lixeiras da zona industrial. São Paulo, uma cidade violenta, onde moças solitárias podem ser mortas por vagabundos a qualquer hora da noite. Daniel contava com 15 milhões de pessoas que lhe forneciam o anonimato das multidões. Quem poderia suspeitar do rapaz prestativo, que abominava a violência e pertencia a elite?

O sucesso de seu primeiro assassinato o empolgou. Daniel precisava voltar a matar para sentir aquele prazer doentio novamente. Suas vítimas eram de preferência moças novas, uma virgem era sempre o alvo mais procurado. Os crimes tornaram-se cada vez mais odiosos. Os jornais já publicavam artigos, apelidando o maníaco de “Jackreisson, o Estripador da Periferia“, uma versão terceiro-mundista do famoso assassino de mulheres que aterrorizou Londres no final do século XIX.

Durante o outono e o inverno, ele fez mais quatro vítimas, sempre sem deixar pistas para a polícia. Ninguém via o homem que conversava com as garotas, pois ele tomava o cuidado de abandonar qualquer uma que o apresentasse a uma amiga ou algo do gênero, além do mais, a ineficiência da polícia e o sensacionalismo barato da imprensa levavam as suspeitas cada vez mais para a periferia.

Todo psicopata pode levar uma vida normal nos intervalos de seus crimes. Além de inúmeros amigos, Daniel também tinha colegas que lhe eram muito próximos e o conheciam de longa data. Pode-se dizer que Gustavo Lemes e sua irmã Ana Paula conheciam Daniel desde a infância e, quis o destino, que eles estudassem juntos até a universidade. Recentemente, Raquel Campos havia se juntado a este grupo íntimo de amigos.

Todos na elite paulistana já tinham ouvido falar de Raquel Campos, uma das herdeiras da imensa fortuna de João e Leda Campos, ambos falecidos em um desastre de automóvel havia poucos meses.

Raquel, uma morena de lindos olhos castanhos amendoados havia ficado órfã, com apenas 21 anos, e agora tinha a responsabilidade de cuidar da irmã mais nova, Tatiane, e também de administrar toda a fortuna da família. Não haviam mais parentes vivos, eram somente elas duas e, como dizia ela, muita coragem para enfrentar a vida. Portanto, qualquer gavião interesseiro sabia que elas eram o melhor partido da cidade, lindas e ricas. Gustavo, sempre muito ligado aos bens materiais, já tinha avisado Daniel:

“Nem se dê ao trabalho de conhecer a Tatiane, pois ela é só uma sombra da Raquel. É essa potranca que controla o dinheiro deixado pelos pais! Uma grana preta, meu! Vale a pena investir numa cantada para tentar a sorte! E você viu como ela olha pra você? Ah! Se ela me dessa essa bola…”

Daniel sorria dessa possibilidade e da ingenuidade do amigo, pois definitivamente, não era dinheiro que o atraia… Se Gustavo realmente soubesse do que Daniel gostava!

Era um sábado comum na universidade, tudo tranqüilo nas áreas de pesquisa e biblioteca, quase desertas. Raquel trouxera sua irmã para fazer as inscrições para o vestibular do final de ano.

Tatiane era muito parecida com a irmã, apesar de ser mais nova, porém, na opinião de Daniel, ela era muito mais ingênua, com aquele olhar inocente da infância perfeitamente preservado no rosto. Seria uma vítima perfeita quando estivesse ao seu alcance. Só que, por hora, as intenções dele eram outras…

A doce sensação de impunidade deixou Daniel cada vez mais ousado. Ele estava muito perto da absoluta falta de controle. Faltava ainda uma experiência a ser feita. Qual seria a sensação de matar uma amiga? Teria ele coragem para tanto? Ele já tinha tudo planejado para esse sábado. Deixando Raquel e sua irmã sem sal de lado, ele ficou na biblioteca, pesquisando… Na verdade, estava apenas aguardando o momento em que sua amiga de infância, Ana Paula, largasse o livro que estava lendo e fosse até o banheiro feminino. Daniel seguiu os passos da garota até chegar ao banheiro, e, atacando-a pelas costas, matou-a lá mesmo. Porém, uma sensação de pânico o atingiu, quando terminou de estrangular a moça. O assassino sentiu que alguém o observava! Havia mais alguém lá! Alguém que o espreitava nas sombras!

Ele olhou rapidamente para a porta, a tempo de vê-la ainda balançando. Correu até o corredor, observou, mas não havia ninguém por perto. Só então percebeu a loucura que havia feito. O prazer do momento não compensava o pavor que estava sentindo. Agindo depressa, conseguiu esconder o corpo em um carrinho de coleta de lixo, deixado pela faxineira.

Daniel teve muita sorte. Ninguém notou quando ele recolheu o material de estudo de Ana Paula, levando-o embora, junto com o seu. Cobrindo o corpo de sua colega com o lixo, esperou o zelador terminar seu serviço, levando o coletor para os fundos da universidade para ser recolhido no dia seguinte. Daniel só teve que voltar com seu carro à noite, e “roubar” o corpo da lixeira, depositando-o num beco distante.

A sensação de alívio por não ter sido descoberto não servia para afastar de Daniel a impressão de que alguém o tinha visto. Em seus sonhos, que já eram pesadelos, ele sentia dois olhos frios como os de uma cobra, cravados nele. Olhos insanos a observá-lo, cientes do que ele havia feito. Olhos maus penetrando em seu mais profundo segredo, invadindo sua alma e enchendo-o de um terror nunca antes experimentado.

Daniel não estava preparado para aquela sensação. Passou semanas doente, com febre alta. Todos diziam que a morte da amiga o abalara profundamente. Ele andou na linha por algum tempo, pois os “olhos frios” ainda o impressionavam muito e havia também a polícia, que apesar da incompetência, tinha sua atenção voltada agora para a universidade.

Tudo se complicava e ganhava um ar de mistério. Uma denúncia anônima informou a polícia de que um homem estranho, com mais de 40 anos, dera uma carona para Ana Paula naquele sábado fatídico. Isso desviou um pouco o foco das investigações. Mas afinal, quem estava tentando ajudar Daniel?

Quase no fim do semestre, ele esbarrou novamente na irmã de Raquel, porém, o encontro nessa ocasião foi diferente. Tatiane estava apressada, trazendo uns livros que a irmã havia esquecido em casa. Na corrida, acabou esbarrando em Daniel e os livros se esparramaram pelo chão. A moça usava um vestido branco, que se encaixava perfeitamente em seu corpo esguio, deixando suas lindas coxas à mostra. Seus cabelos variavam de um castanho claro para um tom mais escuro, eram cabelos leves e longos que esvoaçavam até mesmo com a menor brisa. E seus olhos… Ah! Seus olhos, que olhos! Eram de um castanho profundo, que combinavam perfeitamente com os cabelos. Olhos límpidos, olhos da inocência. Sem dúvida, pensou Daniel, Tatiane era o anjo mais belo que já existira na Terra.

Quando terminaram de recolher os livros, a garota se ergueu, falando extremamente envergonhada:

- Desculpe-me, sou tão desajeitada… Raquel esqueceu estes livros, não sei o que deu na cabeça dela! Como alguém pode estudar sem nenhum material?

Sua voz era como veludo, com um tom suave e delicado. Daniel sabia reconhecer esta voz, tímida, acanhada, a voz de uma vítima! Um frenesi apoderou-se dele, decidiu matar aquele anjo sem mais demora.

Porém, Tatiane saiu da universidade em seguida, pois Raquel não havia aparecido por lá naquele dia. Foi somente às três horas da tarde, para alívio de Daniel, que o anjo reapareceu, dirigindo-se à biblioteca pública.

Às quatro horas, Tatiane encaminhou-se para a saída, parando no saguão para dar um telefonema. Daniel ficou apreensivo, pois ela estava com várias amigas de Raquel. A ligação devia estar péssima, pois ela precisava falar muito alto ao telefone:

- Raquel, você está me ouvindo? Ocorreu um imprevisto e eu não vou poder ir ao parque me encontrar com você… Vou direto para o shopping, certo? Encontro você lá, ok?… Um beijo… Tchau!

Ela desligou e disse para as amigas:

- Minha irmã é o cúmulo! Além de gazear aula, ainda me pede para vir fazer pesquisa por ela e agora quer que eu a encontre no parque Vitória. Não vou ter tempo de ir até lá! É muito abusada!

Para a extrema felicidade de Daniel, Tatiane mandou as amigas para o shopping do centro, dispensando seu segurança particular com elas, e pôs-se a andar a pé pelas ruas da cidade. Seu amigo Gustavo quase estragou tudo, aparecendo em seu caminho de repente, dizendo querer conversar sobre Ana Paula. Resmungando, Daniel apressou-se em dizer qualquer coisa e seguiu rapidamente atrás da sua “presa”.

Tudo parecia perfeito. A pobre moça indefesa andando só e desprotegida pelas ruas violentas da cidade. Ele a perseguia a poucos metros de distância, enquanto imaginava o que fazer com aquele corpo macio. A dor que poderia causar, aqueles olhos castanhos enchendo-se de lágrimas salgadas, deliciosas… Um prazer insano apoderava-se de seu corpo.

Este seria seu mais ousado crime. Matar uma das herdeiras de um império. Daniel estava exultante, roçando constantemente a faca que sempre trazia consigo; mal podia esperar a hora dela ficar sozinha em algum lugar deserto.

Tatiane parou em uma loja de artigos finos, onde comprou uma calça e jaquetas pretas, saindo da loja já vestindo o conjunto. Seu cabelo agora estava preso. Daniel quase a perdeu de vista. Felizmente, ela andava devagar e sua enorme bolsa era de fácil identificação.

A perseguição durou ainda um quarto de hora, até que a garota dirigiu-se para o parque Vitória, um lugar com fama de violento, perfeito para um crime.

Daniel vibrava! Tinha a certeza que poderia continuar com seus crimes para sempre, nada jamais o deteria. Para sempre, uma eternidade de prazer! Estava tudo perfeito. Agora era só uma questão de minutos… Aquele anjo iria morrer, lenta e dolorosamente. No entanto, algo o incomodava. Desde que iniciara a perseguição, ele tentava lembrar de algo antigo, que lera certa vez. Uma lenda sobre anjos, algo que, sem dúvida, era muito importante, mas que ele não conseguia lembrar de jeito nenhum.

Uma atitude inesperada de Tatiane surpreendeu seu perseguidor. Ela saiu da estrada e entrou atrás de alguns arbustos isolados. Parecia um milagre de tão conveniente! Daniel, já com a faca na mão, andou em direção aos arbustos. Foi então que teve um repentino calafrio e pela primeira vez lhe ocorreu que ele tinha escutado Tatiane dizer que não iria ao parque Vitória!

Este e outros pensamentos começaram a brotar no cérebro de Daniel. Um temor apoderou-se de seu ser. Havia algo muito errado, algo conveniente demais… Não, não era possível! Aquela sensação, aquela lenda antiga que ele não conseguia lembrar…

Respirando fundo, ele afastou os arbustos e viu…

Capítulo II

“Do you believe in forever?
I don’t even believe in tomorrow
The only thing that last forever
are memories and sorrow”

(Peter Steele)

Respirando fundo, ele afastou os arbustos e viu…

A poucos metros de distância, um corpo jazia inerte. O corpo de uma moça de cabelos castanhos escuros, presos. Uma poça de sangue coagulado formava-se a partir de seu abdômen, manchando a jaqueta e as calças pretas que ela usava.

O rosto, virado de lado, tinha uma expressão de espanto, de incredulidade. E os olhos! Muito abertos, pupilas dilatadas; eram olhos apavorados, olhos de uma vítima. Os olhos de Raquel Campos.

Daniel observava aquela cena dantesca, atônito, quando um calafrio percorreu sua nuca. Sentiu aqueles mesmos olhos maus que o haviam observado enquanto matava Ana Paula. Sim! Aqueles olhos felinos estavam observando-o de novo. Atrás dele! Ele sabia o que ia acontecer. Corajosamente, voltou-se para encará-los…

Tatiane atirou à queima-roupa. Um disparo perfeito e a bala atingiu o peito de Daniel. Este tombou pesadamente, com o sangue invadindo sua garganta, impedindo-o de gritar. Não havia ninguém por perto, mesmo assim, seria difícil ouvir um disparo de uma Lugher com silenciador.

Dizem que lembramos de toda nossa vida na hora da morte. Na velocidade de um raio, Daniel ao menos recordou a última parte.

Enquanto gemia, sentindo uma fria escuridão apoderar-se de sua alma, pôde observar a destreza com que Tatiane agia. Primeiro, ela colocou a arma nas mãos da irmã morta. Em seguida, retirou seu traje preto, voltando a vestir o vestido branco e desprendendo o cabelo. Por fim, retirou uma faca suja de sangue de trás de alguns arbustos e trocou-a pela que ele ainda segurava nas mãos.

Tudo estava claro, agora! Pena que era tarde demais e a vida ia se esvaindo rapidamente de seu corpo. Como havia sido tolo! A maneira como ela anunciou para todos, aos gritos, que sua irmã estava sozinha no parque Vitória. A destreza com que ela dispensou os seguranças, para que pudesse ir até a loja, comprar uma roupa igual a que a irmã estava usando. Até a demora, esperando o anoitecer, para que ninguém a reconhecesse entrando no parque. Mais tarde, a polícia colheria interrogatórios e certamente todos diriam ter visto uma moça de preto entrando no parque, mas ninguém veria uma moça assim sair de lá.

Raquel devia ter sido morta horas antes, ainda pela manhã. Deve ter sido fácil atrair a irmã, sob um pretexto qualquer, para atrás daqueles arbustos, e esfaqueá-la em seguida, deixando-a agonizar. Então, a única preocupação de Tatiane foi ir para a universidade e atrair o pato para a armadilha.

Tatiane Campos havia penetrado na alma de Daniel. Desde que o vira matar, ela soubera exatamente o que o atraia em uma mulher. Desempenhou com maestria o papel de virgem desamparada. A pobre menina tola… Aquele anjo que agora olhava-o com seus olhos castanhos profundos, parecendo estar com pena dele, mas certamente estava somente analisando as possibilidades de Daniel não morrer logo, o que seria muito inconveniente.

Daniel podia imaginar as manchetes do dia seguinte:

“Estripador da Periferia era playbouzinho de elite!”

“Raquel Campos morre em tragédia!”

Tatiane, que antes era apenas um capacho de sua irmã, agora era a feliz e única herdeira do império Campos. Só tinha que sair do parque e esperar pela triste notícia da tragédia. Os olhos dela já não tinham a pureza de uma virgem. Ao contrário, eles brilhavam com um fogo selvagem, impulsivo e incontrolável. Ela estava mais bela do que nunca. Daniel conseguiu murmurar suas últimas palavras:

- Anjo… demônio…

E então, ele morreu.

Com um sorriso nos lábios, Tatiane se afastou, desaparecendo nas trevas que envolviam as últimas luzes do dia.

Segundo as antigas lendas, Lúcifer era o anjo mais belo do paraíso…

FIM

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