O Anjo Mais Belo

Junho 2, 2008 at 11:04 pm (Contos) (, , )

 Capítulo I

“Cannot kill the battery
Cannot kill the family
Battery is found in me
Battery”

(J. Hetfield – L. Ulrich)

Daniel Roberto Litwin era um belo exemplar da raça humana. Louro de olhos azuis, esbelto e forte, no auge dos seus 23 anos, era sempre atencioso e gentil para com todos. Um estudante universitário que obtinha sempre as melhores notas, um futuro advogado, enfim, o sonho de qualquer garota. Nenhuma delas, no entanto, sequer podia imaginar que por trás daquela bela imagem, escondia-se um cruel serial killer

Na verdade, nem ele mesmo poderia dizer com certeza o que ocorreu e como as coisas haviam chegado àquele ponto, mas as mudanças em sua personalidade começaram quando ele saiu com as primeiras mulheres. Certa vez, quando brigou com uma delas, sentiu um estranho prazer ao apertar o braço da garota. A dor que ela sentia dava para Roberto um prazer maior do que o proporcionado por qualquer tipo de beijo.

No início, Daniel até tentou refrear seus instintos, mas logo sucumbiu aos perversos desejos que sentia. Desde então, nunca mais ficou com uma namorada por mais que três meses, pois tudo acabava na primeira noite que passavam juntos. Seu comportamento sexual cada vez mais agressivo intimidava e apavorava suas acompanhantes, mas ele era indiferente ao terror que causava. O princípio era simples: quanto mais dor elas sentissem, melhor.

O rapaz era cuidadoso e jamais ficava com garotas conhecidas na sociedade, preferindo sempre as mais tímidas, incapazes de espalhar “estórias” absurdas a respeito desse moço sério e estudioso.

O tempo foi passando e Daniel livrou-se de suas inibições e de seus medos, estava confiante em si mesmo, tornou-se cada vez mais ousado, até que um dia, ocorreu o inevitável.

Karen era uma ruivinha de apenas 15 anos, dessas que já começam a freqüentar festas desde muito cedo, tentando provar mais para si mesmas do que para os outros que já são mulheres. Ela já saíra duas vezes com Daniel e naquela noite ele a levou até um lugar deserto, na periferia paulistana.

“Feche os olhos, tenho uma surpresa para você….”

Excitada, ela obedeceu, mas ao invés de um doce beijo, recebeu um violento soco que a desacordou imediatamente.

Daniel era realmente muito precavido e já havia pensado em tudo. Arrastou Karen para fora do carro, antes de esfaqueá-la. A sensação que sentiu quando a faca penetrou no abdômen daquela pequena garota indefesa foi indescritível. Sem dúvida, mil noites de amor não se igualariam àquele momento.

Foi muito fácil ensacar e depois jogar o corpo em uma das lixeiras da zona industrial. São Paulo, uma cidade violenta, onde moças solitárias podem ser mortas por vagabundos a qualquer hora da noite. Daniel contava com 15 milhões de pessoas que lhe forneciam o anonimato das multidões. Quem poderia suspeitar do rapaz prestativo, que abominava a violência e pertencia a elite?

O sucesso de seu primeiro assassinato o empolgou. Daniel precisava voltar a matar para sentir aquele prazer doentio novamente. Suas vítimas eram de preferência moças novas, uma virgem era sempre o alvo mais procurado. Os crimes tornaram-se cada vez mais odiosos. Os jornais já publicavam artigos, apelidando o maníaco de “Jackreisson, o Estripador da Periferia“, uma versão terceiro-mundista do famoso assassino de mulheres que aterrorizou Londres no final do século XIX.

Durante o outono e o inverno, ele fez mais quatro vítimas, sempre sem deixar pistas para a polícia. Ninguém via o homem que conversava com as garotas, pois ele tomava o cuidado de abandonar qualquer uma que o apresentasse a uma amiga ou algo do gênero, além do mais, a ineficiência da polícia e o sensacionalismo barato da imprensa levavam as suspeitas cada vez mais para a periferia.

Todo psicopata pode levar uma vida normal nos intervalos de seus crimes. Além de inúmeros amigos, Daniel também tinha colegas que lhe eram muito próximos e o conheciam de longa data. Pode-se dizer que Gustavo Lemes e sua irmã Ana Paula conheciam Daniel desde a infância e, quis o destino, que eles estudassem juntos até a universidade. Recentemente, Raquel Campos havia se juntado a este grupo íntimo de amigos.

Todos na elite paulistana já tinham ouvido falar de Raquel Campos, uma das herdeiras da imensa fortuna de João e Leda Campos, ambos falecidos em um desastre de automóvel havia poucos meses.

Raquel, uma morena de lindos olhos castanhos amendoados havia ficado órfã, com apenas 21 anos, e agora tinha a responsabilidade de cuidar da irmã mais nova, Tatiane, e também de administrar toda a fortuna da família. Não haviam mais parentes vivos, eram somente elas duas e, como dizia ela, muita coragem para enfrentar a vida. Portanto, qualquer gavião interesseiro sabia que elas eram o melhor partido da cidade, lindas e ricas. Gustavo, sempre muito ligado aos bens materiais, já tinha avisado Daniel:

“Nem se dê ao trabalho de conhecer a Tatiane, pois ela é só uma sombra da Raquel. É essa potranca que controla o dinheiro deixado pelos pais! Uma grana preta, meu! Vale a pena investir numa cantada para tentar a sorte! E você viu como ela olha pra você? Ah! Se ela me dessa essa bola…”

Daniel sorria dessa possibilidade e da ingenuidade do amigo, pois definitivamente, não era dinheiro que o atraia… Se Gustavo realmente soubesse do que Daniel gostava!

Era um sábado comum na universidade, tudo tranqüilo nas áreas de pesquisa e biblioteca, quase desertas. Raquel trouxera sua irmã para fazer as inscrições para o vestibular do final de ano.

Tatiane era muito parecida com a irmã, apesar de ser mais nova, porém, na opinião de Daniel, ela era muito mais ingênua, com aquele olhar inocente da infância perfeitamente preservado no rosto. Seria uma vítima perfeita quando estivesse ao seu alcance. Só que, por hora, as intenções dele eram outras…

A doce sensação de impunidade deixou Daniel cada vez mais ousado. Ele estava muito perto da absoluta falta de controle. Faltava ainda uma experiência a ser feita. Qual seria a sensação de matar uma amiga? Teria ele coragem para tanto? Ele já tinha tudo planejado para esse sábado. Deixando Raquel e sua irmã sem sal de lado, ele ficou na biblioteca, pesquisando… Na verdade, estava apenas aguardando o momento em que sua amiga de infância, Ana Paula, largasse o livro que estava lendo e fosse até o banheiro feminino. Daniel seguiu os passos da garota até chegar ao banheiro, e, atacando-a pelas costas, matou-a lá mesmo. Porém, uma sensação de pânico o atingiu, quando terminou de estrangular a moça. O assassino sentiu que alguém o observava! Havia mais alguém lá! Alguém que o espreitava nas sombras!

Ele olhou rapidamente para a porta, a tempo de vê-la ainda balançando. Correu até o corredor, observou, mas não havia ninguém por perto. Só então percebeu a loucura que havia feito. O prazer do momento não compensava o pavor que estava sentindo. Agindo depressa, conseguiu esconder o corpo em um carrinho de coleta de lixo, deixado pela faxineira.

Daniel teve muita sorte. Ninguém notou quando ele recolheu o material de estudo de Ana Paula, levando-o embora, junto com o seu. Cobrindo o corpo de sua colega com o lixo, esperou o zelador terminar seu serviço, levando o coletor para os fundos da universidade para ser recolhido no dia seguinte. Daniel só teve que voltar com seu carro à noite, e “roubar” o corpo da lixeira, depositando-o num beco distante.

A sensação de alívio por não ter sido descoberto não servia para afastar de Daniel a impressão de que alguém o tinha visto. Em seus sonhos, que já eram pesadelos, ele sentia dois olhos frios como os de uma cobra, cravados nele. Olhos insanos a observá-lo, cientes do que ele havia feito. Olhos maus penetrando em seu mais profundo segredo, invadindo sua alma e enchendo-o de um terror nunca antes experimentado.

Daniel não estava preparado para aquela sensação. Passou semanas doente, com febre alta. Todos diziam que a morte da amiga o abalara profundamente. Ele andou na linha por algum tempo, pois os “olhos frios” ainda o impressionavam muito e havia também a polícia, que apesar da incompetência, tinha sua atenção voltada agora para a universidade.

Tudo se complicava e ganhava um ar de mistério. Uma denúncia anônima informou a polícia de que um homem estranho, com mais de 40 anos, dera uma carona para Ana Paula naquele sábado fatídico. Isso desviou um pouco o foco das investigações. Mas afinal, quem estava tentando ajudar Daniel?

Quase no fim do semestre, ele esbarrou novamente na irmã de Raquel, porém, o encontro nessa ocasião foi diferente. Tatiane estava apressada, trazendo uns livros que a irmã havia esquecido em casa. Na corrida, acabou esbarrando em Daniel e os livros se esparramaram pelo chão. A moça usava um vestido branco, que se encaixava perfeitamente em seu corpo esguio, deixando suas lindas coxas à mostra. Seus cabelos variavam de um castanho claro para um tom mais escuro, eram cabelos leves e longos que esvoaçavam até mesmo com a menor brisa. E seus olhos… Ah! Seus olhos, que olhos! Eram de um castanho profundo, que combinavam perfeitamente com os cabelos. Olhos límpidos, olhos da inocência. Sem dúvida, pensou Daniel, Tatiane era o anjo mais belo que já existira na Terra.

Quando terminaram de recolher os livros, a garota se ergueu, falando extremamente envergonhada:

- Desculpe-me, sou tão desajeitada… Raquel esqueceu estes livros, não sei o que deu na cabeça dela! Como alguém pode estudar sem nenhum material?

Sua voz era como veludo, com um tom suave e delicado. Daniel sabia reconhecer esta voz, tímida, acanhada, a voz de uma vítima! Um frenesi apoderou-se dele, decidiu matar aquele anjo sem mais demora.

Porém, Tatiane saiu da universidade em seguida, pois Raquel não havia aparecido por lá naquele dia. Foi somente às três horas da tarde, para alívio de Daniel, que o anjo reapareceu, dirigindo-se à biblioteca pública.

Às quatro horas, Tatiane encaminhou-se para a saída, parando no saguão para dar um telefonema. Daniel ficou apreensivo, pois ela estava com várias amigas de Raquel. A ligação devia estar péssima, pois ela precisava falar muito alto ao telefone:

- Raquel, você está me ouvindo? Ocorreu um imprevisto e eu não vou poder ir ao parque me encontrar com você… Vou direto para o shopping, certo? Encontro você lá, ok?… Um beijo… Tchau!

Ela desligou e disse para as amigas:

- Minha irmã é o cúmulo! Além de gazear aula, ainda me pede para vir fazer pesquisa por ela e agora quer que eu a encontre no parque Vitória. Não vou ter tempo de ir até lá! É muito abusada!

Para a extrema felicidade de Daniel, Tatiane mandou as amigas para o shopping do centro, dispensando seu segurança particular com elas, e pôs-se a andar a pé pelas ruas da cidade. Seu amigo Gustavo quase estragou tudo, aparecendo em seu caminho de repente, dizendo querer conversar sobre Ana Paula. Resmungando, Daniel apressou-se em dizer qualquer coisa e seguiu rapidamente atrás da sua “presa”.

Tudo parecia perfeito. A pobre moça indefesa andando só e desprotegida pelas ruas violentas da cidade. Ele a perseguia a poucos metros de distância, enquanto imaginava o que fazer com aquele corpo macio. A dor que poderia causar, aqueles olhos castanhos enchendo-se de lágrimas salgadas, deliciosas… Um prazer insano apoderava-se de seu corpo.

Este seria seu mais ousado crime. Matar uma das herdeiras de um império. Daniel estava exultante, roçando constantemente a faca que sempre trazia consigo; mal podia esperar a hora dela ficar sozinha em algum lugar deserto.

Tatiane parou em uma loja de artigos finos, onde comprou uma calça e jaquetas pretas, saindo da loja já vestindo o conjunto. Seu cabelo agora estava preso. Daniel quase a perdeu de vista. Felizmente, ela andava devagar e sua enorme bolsa era de fácil identificação.

A perseguição durou ainda um quarto de hora, até que a garota dirigiu-se para o parque Vitória, um lugar com fama de violento, perfeito para um crime.

Daniel vibrava! Tinha a certeza que poderia continuar com seus crimes para sempre, nada jamais o deteria. Para sempre, uma eternidade de prazer! Estava tudo perfeito. Agora era só uma questão de minutos… Aquele anjo iria morrer, lenta e dolorosamente. No entanto, algo o incomodava. Desde que iniciara a perseguição, ele tentava lembrar de algo antigo, que lera certa vez. Uma lenda sobre anjos, algo que, sem dúvida, era muito importante, mas que ele não conseguia lembrar de jeito nenhum.

Uma atitude inesperada de Tatiane surpreendeu seu perseguidor. Ela saiu da estrada e entrou atrás de alguns arbustos isolados. Parecia um milagre de tão conveniente! Daniel, já com a faca na mão, andou em direção aos arbustos. Foi então que teve um repentino calafrio e pela primeira vez lhe ocorreu que ele tinha escutado Tatiane dizer que não iria ao parque Vitória!

Este e outros pensamentos começaram a brotar no cérebro de Daniel. Um temor apoderou-se de seu ser. Havia algo muito errado, algo conveniente demais… Não, não era possível! Aquela sensação, aquela lenda antiga que ele não conseguia lembrar…

Respirando fundo, ele afastou os arbustos e viu…

Capítulo II

“Do you believe in forever?
I don’t even believe in tomorrow
The only thing that last forever
are memories and sorrow”

(Peter Steele)

Respirando fundo, ele afastou os arbustos e viu…

A poucos metros de distância, um corpo jazia inerte. O corpo de uma moça de cabelos castanhos escuros, presos. Uma poça de sangue coagulado formava-se a partir de seu abdômen, manchando a jaqueta e as calças pretas que ela usava.

O rosto, virado de lado, tinha uma expressão de espanto, de incredulidade. E os olhos! Muito abertos, pupilas dilatadas; eram olhos apavorados, olhos de uma vítima. Os olhos de Raquel Campos.

Daniel observava aquela cena dantesca, atônito, quando um calafrio percorreu sua nuca. Sentiu aqueles mesmos olhos maus que o haviam observado enquanto matava Ana Paula. Sim! Aqueles olhos felinos estavam observando-o de novo. Atrás dele! Ele sabia o que ia acontecer. Corajosamente, voltou-se para encará-los…

Tatiane atirou à queima-roupa. Um disparo perfeito e a bala atingiu o peito de Daniel. Este tombou pesadamente, com o sangue invadindo sua garganta, impedindo-o de gritar. Não havia ninguém por perto, mesmo assim, seria difícil ouvir um disparo de uma Lugher com silenciador.

Dizem que lembramos de toda nossa vida na hora da morte. Na velocidade de um raio, Daniel ao menos recordou a última parte.

Enquanto gemia, sentindo uma fria escuridão apoderar-se de sua alma, pôde observar a destreza com que Tatiane agia. Primeiro, ela colocou a arma nas mãos da irmã morta. Em seguida, retirou seu traje preto, voltando a vestir o vestido branco e desprendendo o cabelo. Por fim, retirou uma faca suja de sangue de trás de alguns arbustos e trocou-a pela que ele ainda segurava nas mãos.

Tudo estava claro, agora! Pena que era tarde demais e a vida ia se esvaindo rapidamente de seu corpo. Como havia sido tolo! A maneira como ela anunciou para todos, aos gritos, que sua irmã estava sozinha no parque Vitória. A destreza com que ela dispensou os seguranças, para que pudesse ir até a loja, comprar uma roupa igual a que a irmã estava usando. Até a demora, esperando o anoitecer, para que ninguém a reconhecesse entrando no parque. Mais tarde, a polícia colheria interrogatórios e certamente todos diriam ter visto uma moça de preto entrando no parque, mas ninguém veria uma moça assim sair de lá.

Raquel devia ter sido morta horas antes, ainda pela manhã. Deve ter sido fácil atrair a irmã, sob um pretexto qualquer, para atrás daqueles arbustos, e esfaqueá-la em seguida, deixando-a agonizar. Então, a única preocupação de Tatiane foi ir para a universidade e atrair o pato para a armadilha.

Tatiane Campos havia penetrado na alma de Daniel. Desde que o vira matar, ela soubera exatamente o que o atraia em uma mulher. Desempenhou com maestria o papel de virgem desamparada. A pobre menina tola… Aquele anjo que agora olhava-o com seus olhos castanhos profundos, parecendo estar com pena dele, mas certamente estava somente analisando as possibilidades de Daniel não morrer logo, o que seria muito inconveniente.

Daniel podia imaginar as manchetes do dia seguinte:

“Estripador da Periferia era playbouzinho de elite!”

“Raquel Campos morre em tragédia!”

Tatiane, que antes era apenas um capacho de sua irmã, agora era a feliz e única herdeira do império Campos. Só tinha que sair do parque e esperar pela triste notícia da tragédia. Os olhos dela já não tinham a pureza de uma virgem. Ao contrário, eles brilhavam com um fogo selvagem, impulsivo e incontrolável. Ela estava mais bela do que nunca. Daniel conseguiu murmurar suas últimas palavras:

- Anjo… demônio…

E então, ele morreu.

Com um sorriso nos lábios, Tatiane se afastou, desaparecendo nas trevas que envolviam as últimas luzes do dia.

Segundo as antigas lendas, Lúcifer era o anjo mais belo do paraíso…

FIM

1 Comentário

  1. adrianastrix disse,

    # Sério, Sam, esse é, talvez, seu melhor conto. Um dos motivos pelos quais sou sua fã. =3

    # Bjins!

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