Os Fãs de Agatha Christie

Junho 13, 2008 at 12:25 am (Contos) (, , )

Capítulo Um: Encontro no Mitatório

Rio de Janeiro – sábado – 09:00

Tommy Ruas pensou: “É a realização de um sonho”.

Pela primeira vez, um grupo de amigos se reuniria para que todos se conhecessem pessoalmente. Até então, eles apenas trocavam correspondências através da internet. No início, tinham em comum apenas a paixão pelos livros da escritora inglesa Agatha Christie, mas com o passar do tempo, começaram a perceber diversas outras afinidades. A bem da verdade, alguns deles já se conheciam pessoalmente e foi assim que surgiu a idéia do encontro. E que lugar melhor para acontecer um evento desses do que o Mitatório? Era simplesmente o lugar perfeito!

O Mitatório era o restaurante de Tommy. Ele comprara aquela grande casa em estilo vitoriano há alguns anos. Apesar do lixo e da imundície acumulados e do péssimo estado da obra, Tommy viu todas as possibilidades do ambiente. Após muitas reformas, o resultado era um agradável e aconchegante restaurante temático, destinado aos amantes do mistério e da aventura.

O estilo da casa, a decoração, os jardins, enfim tudo havia sido projetado para que o conjunto final lembrasse as imensas mansões vitorianas, onde costumavam acontecer crimes escabrosos e aparentemente insolucionáveis, isto é, crimes que aconteciam apenas no universo das obras de mistério.

Naquele instante, Tiago Ruas entrou apressado pela porta principal. A primeira vista, poderia se dizer que os dois eram irmãos, porém, Tiago era sobrinho de Tommy. O jovem estudante de teatro adorava histórias de mistério e era o fiel escudeiro de Tommy, ajudando-o a administrar o Mitatório. Os clientes mais antigos chamavam os dois de “Irmãos Hastings”, devido à semelhança de ambos com o ator inglês que interpretava este personagem de Agatha Christie em uma famosa série de televisão.

Tiago estava afobado, como sempre, e perguntou:

- A que horas o pessoal vai chegar?

- Bom dia, Tiago! Os nossos convidados devem estar chegando a partir das dez horas. Dispensei todos os funcionários, como tínhamos combinado, vamos criar um clima mais familiar para nossos amigos. Você preparou o enigma?

Tiago respondeu sorrindo:

- Claro! Assim que forem chegando, vão colocar seus pertences em cima da mesa, no hall de entrada e poderemos realizar o jogo.

Tommy adorava esse tipo de enigma lógico, uma pequena diversão bem apropriada para fãs de mistério. No entanto, um outro assunto aflorou na mente do dono do Mitatório, que se lembrou de perguntar:

- E seus estudos, Tiago? Vejo seu material de estudo sempre na cozinha e me pergunto se você está realmente preparado para o teste da escola de teatro?

- Vai ser na semana que vem, tio. Estou pronto!

- Ótimo! Você sabe que tem que se virar na vida sem depender do Mitatório! Lembre-se de todo esforço que meu irmão, seu pai, fez para pagar seus estudos… Você tem que ter a mente concentrada em concretizar o seu destino, que é o de ser um grande ator!

Tiago sabia muito bem o que o tio estava querendo insinuar, alias, fazia dois meses que ele vinha ouvindo essa mesma história. Oportunamente, o ronco de um potente motor ultrapassando os portões de entrada foi à deixa certa para Tiago mudar de assunto:

- Ouça, tio! Nosso primeiro convidado acaba de passar com seu carro pelo portão principal, vamos recebê-lo lá fora!

O primeiro a chegar foi Mitáfilo Nehujar, o gaúcho de origem alemã. Ninguém que olhasse para aquele sujeito vestido como surfista, com aquela camisa azul florida indefectível, diria que estava diante do mais brilhante estudante de medicina da Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Tiago exclamou:

- Fala Mitá! Cara! Que carrão é esse? Você nunca me disse que tinha um Corolla!

Mitáfilo, todo sem jeito, começou a explicar:

- Pois é… Ganhei de presente do meu pai quando passei no vestibular…

Nesse momento, um carro entrou rapidamente no estacionamento, passou tão perto do Toyota de Mitáfilo que este chegou a verificar se o retrovisor continuava no lugar. Tratava-se de um Vectra, dirigido por uma mulher exuberantemente vestida. Ela conduziu o carro até a porta principal do restaurante, passando a centímetros do pé esquerdo de Tommy, que saltou para trás, assustado.

Sabrina Baltor, a indômita motorista do Vectra, estacionou bem em frente à entrada do Mitatório, justamente no lugar onde mais poderia prejudicar o trânsito, e desceu rapidamente do carro, seguida por sua vizinha, Mariana Mascheroni.

Sabrina era uma carioca com toda a saúde e beleza de seus 24 anos. Muito extrovertida, ela começou a falar de forma esfuziante: “Felicidade Total”, “O dia mais feliz da minha vida”, “Que prazer ver vocês aqui!”, etc..

Já a sua vizinha era muito mais reservada. A adolescente Mariana, a mais nova do grupo, ainda tinha o rosto de um anjinho, a menos é claro, que um observador mais atento fitasse aqueles pequenos e malvados olhos escuros por algum tempo.

Mitáfilo mal tinha se recuperado do susto, quando apareceu no estacionamento um Vectra do mesmo modelo do anterior e com outra carioca esfuziante ao volante. Felizmente, Claudinha S. Leite, a jovem morena de 23 anos, dirigia bem melhor que sua conterrânea.

A animada turma que havia se formado já ia entrando no restaurante quando chegou Adriano Domingues em seu Fiesta Preto. Adriano era alto, poderia muito bem ser jogador de basquete se quisesse, mas era bem tímido e quando falava, mal se escutava a sua voz. Ele se apresentou polidamente, demonstrando toda a formalidade de um inglês, mesmo que a Inglaterra estivesse a milhares de quilômetros do local onde estavam.

Tommy convidou todos:

- Vamos entrar! É melhor nos apresentarmos tomando um Sirop de Cassis, mas cuidado! Advirto a todos que os brindes de cianureto são permitidos no Mitatório!

Tiago foi fazendo às vezes de anfitrião, orientando todos para que deixassem bolsas, carteiras e chaves de carro em cima da mesa do hall de entrada, pois, segundo ele, haveria mistérios para resolver ainda naquele dia. Após todos terem passado para sala de refeições, iniciou-se o que poderia se chamar de uma “apresentação coletiva”. Tiago, que havia entrado por último na sala, fechou porta e caminhou até o meio do salão, onde todos conversavam alegremente. Tommy notou a entrada discreta de Tiago e piscou o olho para ele. O enigma já devia estar preparado, foi o que ele pensou.

No centro da sala, a pequena Mariana comentava espantada para o resto do grupo:

- Que lugar maravilhoso! Vejam a lagoa! Nada de poluição!

Sabrina Baltor riu do comentário da garota e acrescentou maldosamente:

- Qualquer lugar é lindo para você, Mariana. Também pudera! Você mora em uma casa torta!

Ao ouvir este comentário, Mitáfilo voltou sua atenção para Sabrina: “Onde é que ele havia ouvido falar em casa torta antes?”

Tommy, que acabara de servir mais uma rodada de Sirop de Cassis, declarou com ar de solenidade:

- Que bom poder receber vocês aqui hoje! Pena que ainda estejam faltando alguns membros da mailing list, não?

Tiago, que havia organizado a lista do encontro, divulgou a lista dos ausentes:

- Faltam a Daniela Fernandes e o Samael Darcangelo.

- A Dani não vem! – interveio Claudinha – fiquei sabendo que ela quebrou a perna em um acidente durante uma descida de rapel.

Após vários “que horror” e “rapel é coisa para loucos”, a conversa ficou girando em torno de esportes radicais, até que Sabrina Baltor resolveu mudar de assunto, retornando ao tema da beleza do lugar onde estavam:

- Tommy! Parabéns pelo seu Mitatório! O Tiago vivia falando deste lugar na mailing e ele tinha razão. Esse ambiente misterioso, essa aura… Outra pessoa que deve adorar isto aqui é a Luciana Freire, não é?

O sorriso apagou-se do rosto de Tommy. Ele baixou os olhos, respondendo:

- Infelizmente, Luciana não está mais por aqui. Ela resolveu sair do país… Faz dois meses desde que ela partiu para a Europa… Eu… Eu… Bem… A Europa é um lugar lindo, eu diria até que é o lugar perfeito para novos investimentos… É só não se apegar ao passado…

Nesse momento, a emoção tomou conta de sua voz, e Tommy mal conseguiu completar:

- Fiquem aqui com o Tiago, ele tem surpresas para vocês. Estarei na cozinha, preparando nosso almoço.

Assim que ele saiu da sala, Mitáfilo falou, esquecendo de disfarçar seu sotaque:

- Que baita furo, hein Sabrina? Você não sabia que Tommy e Luciana estavam namorando? A saída repentina da garota deixou o Tommy muito abalado…

O tempo foi passando, as conversas giraram em torno de todo o tipo imaginável de assunto. Conhecer as pessoas em carne e osso era muito, mas muito diferente do que ler suas mensagens pela tela de um computador.

Mariana quis verificar o andamento do almoço e foi para a cozinha fazer companhia para seu novo “tio” Tommy. As atenções na sala estavam voltadas para a camisa azul florida de Mitáfilo, onde se lia, em imensas letras amarelas: “Eu tomo chimarrão, e daí?”. Sabrina não conseguia entender como alguém podia tomar algo quente e amargo e ainda gostar da bebida.

Nesse momento, Adriano saiu discretamente da sala, indo em direção ao banheiro.

Mariana voltou com novidades. Seus olhos negros estavam mais brilhantes do que nunca, quando anunciou:

- O tio Tommy está fazendo um ensopado daqueles das histórias do Poirot!

Claudinha ficou curiosa com o tal ensopado, e, pedindo licença aos demais, saiu em direção a cozinha. Aproveitando a saída da moça, Tiago puxou o assunto:

-Mitá! E o Paulo Schreiner? Lembra? O maluco jurou que um dia ainda iria te colocar na cadeia!

Paulo Schreiner havia ganhado o título de “mala” da mailing. Enquanto esteve inscrito nela, reinara um clima de quase terror. O principal alvo de Schreiner sempre fora Mitáfilo e a coisa ficou séria quando Paulo acabou acusando Mitáfilo de assassinato. Pouco tempo depois, para alívio de todos, Paulo desaparecera da lista e ninguém nunca mais se teve notícias dele.

Sabrina interveio rapidamente:

- Psssst! Não diga nada sobre o “você-sabe-quem” aqui! A Claudinha é sobrinha dele!

- O quê? – Mariana parecia não acreditar.

- É verdade. – Adriano falou com sua voz grave, assustando Sabrina, que não percebera o retorno do gigante – Mas é melhor evitar esse assunto! A Claudinha detesta esse tio, parece que não se falam há anos.

Mariana não se dava por satisfeita:

- E como você pode saber disso?

Adriano ficou vermelho como um pimentão. Comentou em voz sumida:

- Eu e Claudinha namoramos por algum tempo…

Mitáfilo, que não perdia um lance por nada do mundo, concluiu:

- Então o S. de Claudinha S. Leite significa Schreiner! Era só o que faltava!

A conversa parou nesse ponto, pois Claudinha estava voltando da cozinha.

 

Capítulo Dois: Amor e Morte

Rio de Janeiro – sábado – 11:45

Claudinha ia começar a falar sobre algo, mas foi interrompida por um estridente alarme de carro que começou a tocar naquele instante. Mitáfilo reconheceu o som imediatamente:

- É o meu carro! Esperem um pouco que vou desativá-lo.

As conversas ficaram suspensas, enquanto todos observavam Mitáfilo abrir a porta da sala de refeições e dirigir-se para a mesa do hall. Após certa procura, ele anunciou:

- Ei! Cadê as chaves?

Dizendo isso, ele correu para fora. Sabrina, que foi a primeira a segui-lo, notou que o carro ainda estava no estacionamento, porém, reparou que Mitáfilo estava parado, mais branco que uma vela, olhando fixamente para o capo do Toyota. Ela seguiu seu olhar e viu aquilo.

Mariana e Adriano estavam mais longe da cena, mas também perceberam o que havia acontecido no carro de Mitáfilo. Mariana ia perguntar algo, mas a expressão séria e abalada de Adriano a impediu de falar. E o alarme continuava tocando. Claudinha, que havia chegado por último na cena, não conseguia ver o que todos olhavam no capo do carro de Mitáfilo. Ela caminhou até o lado de Adriano e olhou por cima do ombro de Sabrina…

- NÃÃÃÃOOOO!

O grito de Claudinha serviu como um balde de água gelada. O estridente alarme continuava tocando, acompanhado agora por uma confusão de vozes, com todos falando ao mesmo tempo. De repente, cessou o alarme. Tiago, estava parado na porta de entrada, com as chaves do carro de Mitáfilo na mão. Ele parecia não entender a gravidade da situação, pois perguntou sorrindo:

- Que grito foi esse? Vocês estragaram o enigma, sabiam?

- Quer dizer que você é o responsável por isso? – Perguntou Mitáfilo, livrando-se do nó que estava preso em sua garganta.

- Isso o quê? – Tiago perguntou, enquanto se aproximava do Toyota de Mitáfilo. Foi aí que ele pode ver o capo. Parou imediatamente:

- Ei! O que significa isso?

Mitáfilo. Com a paciência por um fio, comentou entre os dentes:

- Pensei que você pudesse me explicar!

- Olha só! É melhor contar tudo. Eu e tio Tommy bolamos um jogo para o Mitatório. É uma espécie de enigma lógico que agrada muito aos fregueses. É bem simples, pedimos que as chaves e bolsas fiquem sobre a mesa.

Após a entrada dos clientes na sala de refeições, eu apanho uma das chaves de carro com alarme e escondo no bolso. Funciona sempre, basta eu acionar o alarme com o controle lá da sala de refeições. Normalmente acontece isso: os convidados saem para o estacionamento e eu aproveito para esconder a chave em uma das bolsas.”

O jogo então é bem simples. Eu e tio Tommy somos ótimos nessa arte de montar enigmas lógicos! Pelo certo, vocês deveriam voltar para dentro, onde eu ia explicar que a chave estava escondida em uma algum lugar do hall de entrada e daria cinco pistas lógicas, do tipo: “o vaso chinês está a esquerda de onde está a chave”, etc..”

Quem acertasse antes onde estava a chave, ganharia o jogo e teria o prazer de se livrar do som do alarme! É uma idéia bem simples, bobinha até, mas vocês não imaginam como isso agrada os clientes!”

Tiago acabou sua explicação sobre o jogo, acrescentando:

- Agora! Isto! – e apontou para o capo do Toyota – Isto eu não sei explicar!

O capo do carro de Mitáfilo estava riscado. Alguém fizera riscos enormes com um prego. Seria apenas obra de algum vândalo que teria invadido o estacionamento, exceto pelo que estava riscado no carro. Não eram riscos aleatórios, havia um padrão, podia-se ler claramente duas letras: “PS”.

Foram essas letras riscadas que paralisaram a todos. P e S, algo que os fazia lembrar de uma pessoa em especial…

Claudinha, muito nervosa, comentou:

- O que vamos fazer agora?

Uma nova voz respondeu. Uma voz clara, com uma entonação perturbadora:

- É melhor entrarmos. Talvez o dono desse carro queira telefonar para a polícia…

Só então foi percebida a presença de um estranho no estacionamento, alias, todos perceberam também que um Opirus preto estava estacionado logo perto da entrada. Ninguém havia percebido a chegada desse carro. O dono dele vestia preto. Sabrina, que já conhecia o estranho, rompeu o silêncio:

- Samael! Finalmente você apareceu! Olha só o que fizeram no carro do Mitáfilo! Você viu quem fez isso?

O convidado atrasado pareceu refletir bastante antes de responder. Um silêncio pesado caiu sobre o local. Um persistente rolo de capim passou rolando entre ele e os demais. Por fim, Samael respondeu:

- Infelizmente, não. Acabei de chegar. Creio que vocês nem perceberam devido ao choque. Só escutei a explicação de Tiago e vi o estrago…

Mariana, que estava emocionada com o “fantástico” acontecimento, olhou fixamente para Samael. Havia algo de errado na cena, mas o que seria? Ah! Sim! Era a posição onde estava Samael. Ele estava muito perto do canto do estacionamento, como se estivesse vindo da parte lateral do Mitatório e não como se estivesse vindo de seu próprio carro… Seria apenas imaginação? Ela achou melhor não falar nada, pois o homem a assustava com seu olhar penetrante.

Quando o grupo se encaminhou novamente para dentro do restaurante, Mitáfilo notou algo peculiar em Samael. Este andava muito próximo de Adriano, de modo que a sombra de Samael não era refletida no chão, sendo encoberta pela do gigante. Mitáfilo lembrou um antigo ditado: “O diabo não tem sombra.”, e em seguida fez o sinal da cruz para se benzer.

Antes de entrar novamente no Mitatório, Adriano olhou para o letreiro acima do portão e pensou: “Restaurante Mitatório, hein? Aqui tem marosca…”

De volta a sala de refeições, Mitáfilo dirigiu-se ao telefone. Sabrina, percebendo o nervosismo de Claudinha, ofereceu:

- Você quer um copo da água? Espere um pouco que vou buscar… Ei! Que cheiro de queimado é esse?

Sabrina disse isso enquanto entrava na cozinha. Ela entrou, deu um passo, parou estática, voltou correndo para a sala e talvez fosse gritar algo, mas não teve tempo. Caiu desmaiada.

O pânico foi geral. Mitáfilo correu para acudir a amiga, enquanto Adriano, Tiago e Samael corriam para a cozinha. A cena parecia irreal. O ensopado queimava em cima do fogão. Deveria ter sido tirado do fogo há algum tempo. Isto é, ele teria sido tirado, se o cozinheiro ainda pudesse fazer isso, mas os mortos não cozinham.

Caído aos pés do fogão, ainda segurando uma colher de pau na mão, estava Tommy. De sua nuca corria um grosso filete de sangue, proveniente de um pequeno orifício. Não havia dúvidas, Tommy Ruas estava morto, assassinado à bala.

Samael conseguiu falar por primeiro:

- Não toquem nele! A polícia tem que fazer a perícia!

Tiago soluçava, encostado na parede:

- Meu Deus! Tio… Não pode ser! MORTO! Como? Por quê? Isso não é verdade…

Adriano bloqueou a entrada de Claudinha e da garota Mariana, dizendo:

- Não entrem! É uma cena horrível! Mitáfilo! Ligue para a polícia depressa!

- O que aconteceu? – gritou Claudinha.

- Tommy está morto! Levou um tiro!

Mariana estava eufórica. Era o dia mais emocionante de sua vida. Já Claudinha, recusava-se a acreditar naquilo tudo. Preferiu se concentrar em Sabrina, que Mitáfilo havia deixado aos seus cuidados, enquanto telefonava para a polícia.

- Tenho sais de cheiro na minha bolsa! – exclamou Claudinha – Mitá! Sais de cheiro podem acordar a Sabrina?

Mitáfilo, que esperava ser atendido no telefone, fez sinal de positivo para Claudinha, e ela então correu para o hall de entrada, indo em direção a sua bolsa.

Adriano, que continuava barrando a entrada da cozinha, olhou para seus pés e reparou em um paninho azul, que estava bem onde não deveria estar. Ele abaixou-se para apanhá-lo, mas Samael interveio:

- Eu também já vi esse pano! Deixe-o aí mesmo! Pode ser uma pista…

Mitáfilo, que já largara o telefone, correu em direção a desacordada Sabrina e gritou, irritado:

- O xerife Poio e o delegado Quin já estão vindo para cá. Mas onde diabos estão os sais de cheiro? Claudinha? CLAUDINHA? DEPRESSA!

No entanto, seu grito foi em vão. Ao longe, escutou-se o ronco de um carro arrancando a toda velocidade. Claudinha estava fugindo do local do crime…

Capítulo Três: Explicações

Rio de Janeiro – terça – 18:00

O funeral de Tommy havia sido manchete em todos os jornais da cidade. O crime escabroso era o assunto das rodas de bar. Claudinha era a principal suspeita, pois ainda estava desaparecida. A polícia já estava a sua procura.

Tiago Ruas foi conduzido até uma sala enorme. Ele percebeu a fina decoração do ambiente, que lembrava claramente o Mitatório. Mesas de mogno, uma estante com dezenas, ou melhor, centenas de livros. Tiago percebeu que, na maioria, eram livros de mistério. No entanto, o que mais chamou a atenção foi um enorme biombo chinês, instalado em um dos cantos da sala.

O dono do luxuoso escritório estava sentado atrás de uma imensa mesa, cheia de entalhes de madeira. Com um aceno, ele convidou Tiago:

- Sente-se ai, meu amigo! Beba um cálice de Sirop de Cassis. Creio que a agitação foi muita nas últimas horas, não?

Tiago aceitou o convite, e respondeu:

- Pois é… Samael! Todo o interrogatório da polícia! O enterro do Tio Tommy! Que tragédia…

Tiago baixou os olhos por alguns momentos, depois, olhou diretamente para Samael e perguntou:

- Por que você me chamou aqui?

- Bem, sem rodeios, Tiago. Gosto de ser objetivo! Quero metade do Mitatório!

- O quê? – Tiago levantou-se num acesso de cólera – Como você tem coragem de vir me falar uma coisa dessas agora! O corpo do meu tio ainda nem esfriou!!!

- Cale-se! – Samael ordenou – Você é o herdeiro natural de Tommy, não? Então é simples, você me dá metade do restaurante em sociedade e pronto!

- E porque eu daria metade do Mitatório para você?

- Porque eu tenho uma pequena história para te contar. Ouça:

Ontem eu cheguei ao restaurante antes que o alarme disparasse. Eu já estava quase entrando, quando ele disparou. Voltei meus olhos para o Toyota e vi as letras “PS” no capo. Instintivamente, corri para a lateral do prédio. Não seria bom que me vissem chegando logo na hora que um alarme disparava e, ainda por cima, era o alarme de um carrão riscado daquela forma tão sugestiva…”

Pelas janelas laterais, pude ver o pessoal saindo aos poucos, exceto você, não é Tiago? Pude ver claramente quando você apareceu no hall de entrada, com a arma na mão. Não consegui identificar o modelo, mas você deve ter pago uma nota para adaptar o silenciador.”

Após esconder a arma em uma das bolsas, você tirou a chave do Mitáfilo do bolso e foi para a entrada, desempenhar seu papel de o-que-está-acontecendo-aqui? – Pelos fatos posteriores, agora sei que você escondeu a arma na bolsa de Claudinha. Muito bem bolado!”

Tiago escutou tudo petrificado. Após assimilar as palavras, desafiou:

- Você não pode provar nada!

- Claro que não! Mas posso contar minha história para a polícia e você sabe como é a nossa polícia, não sabe? Eles estão no encalço de Claudinha apenas porque ela foi ingênua e fugiu. No entanto, logo vão perceber que você é que se beneficiou com a morte de Tommy.

- Veja bem – continuou Samael – Eu não quero te entregar para a polícia. Não ganho nada com isso! Quero apenas me tornar seu sócio no Mitatório! Veja meu escritório! Eu também adoro mistérios, como você! Sejamos sócios! Que importa um assassinato na história do Mitatório? Só vai servir para atrair mais clientes!

Tiago olhou novamente para a decoração do local. Demorou-se um pouco mais, fitando o biombo chinês. Certamente, ele iria precisar da ajuda e do dinheiro de Samael para continuar com seu precioso Mitatório. Além do mais, desde que cometera o crime perfeito, ele sentia uma estranha necessidade de contar para alguém como ele fora esperto! Samael, famoso na mailing por sua falta de escrúpulos, sem dúvida era o cúmplice perfeito.

Tiago falou:

- Eu amo o Mitatório! Procure entender, desde que tio Tommy montou o local, eu passei a maior parte do meu tempo lá, dando duro, batalhando pelo “lugar do mistério”! Ah! Foram dias felizes! Tudo estava perfeito, apesar das insistências para que eu continuasse estudando teatro… O que as pessoas entendem sobre as motivações dos outros? O que eu queria era estar lá, naquele ambiente de magia e mistério, como se eu fizesse parte de um dos livros da Dama do Crime!

Tudo teria continuado perfeito, se a namorada do tio Tommy não tivesse partido para a Europa! Ah! Que porcaria! Tio Tommy não se conformava com a situação, e passou a falar cada vez mais em novos investimentos… Europa é um bom lugar… Cuide de sua vida Tiago, não dependa do Mitatório!”

Ora! O canalha ia vender tudo para ir atrás do seu amor. Cretino! E eu? O que eu podia fazer?”

Foi na própria mailing list que encontrei a inspiração! Lembra daquela frase que o Pete Death sempre citava? Aquela que dizia que ninguém pode dizer se é ou não é um assassino, até ter a chance real de cometer um crime?”

Pois foi o que eu pensei! Por que eu também não podia cometer um crime? Será que na hora H eu teria coragem de puxar o gatilho?”

Samael interrompeu:

- E foi aí que você bolou o plano, não foi?

- Lógico! Aproveitei o encontro do pessoal. Elaborei a lista de convidados, o Mitáfilo e a Claudinha eram presenças indispensáveis!

Naquela manhã, fui o último a entrar. Na verdade fiquei para trás, para poder riscar as letras “PS” no carro do Mitáfilo. Eu sabia o efeito que aquilo iria causar. No momento oportuno, acionei o alarme. Enquanto todos corriam para fora, fui até a cozinha. Tio Tommy achava que o que acontecia era a inocente brincadeira do enigma e nem se perturbou, concentrado que estava em seu ensopado. Retirei um lenço azul de meu bolso, e com ele apanhei a arma que eu previamente havia escondido embaixo de meu material de estudo para o teatro.”

Foi nesse momento que percebi que eu realmente podia matar alguém! Alias, no momento mágico em que disparei a arma, sem sequer tremer, toda a minha vida fez sentido! Todos os livros de mistério que eu li! Todos os enigmas que eu bolei! Nada daquilo pôde se comparar ao prazer de cometer um crime!”

Entenda bem, Samael! Esse é o nosso sonho secreto! Todos que estão na mailing, todos que adoram mistério. O que querem eles? Emoção! Essa é a resposta! E matar é tão fácil… E tão emocionante!”

Samael, que ouvia a tudo impassível, falou:

- Se me permite dizer, a idéia do lenço azul foi fantástica! Você impediu que suas impressões digitais ficassem na arma e deixou o lenço no meio do caminho, para aumentar a confusão, caso isso fosse necessário. Foi assim, não?

Tiago retornou ao tema “como-fui-esperto” e falou emocionado:

- Perceba que eu não pus o lenço junto com a arma na bolsa de Claudinha. A primeira reação quando se encontra um objeto estranho entre nossas coisas é apanhá-lo na mão para vê-lo de perto. Se ela visse também o lenço, poderia lembrar de apagar impressões digitais. A idéia era que a arma ficasse escondida em sua bolsa e que a polícia a descobrisse… O carro riscado com PS… Tudo confuso, um mistério apontando para a sobrinha de um homem desequilibrado.

Mas a sorte está do meu lado, Samael! Claudinha foi buscar os sais de cheiro e encontrou a arma! Aposto que até a segurou nas mãos! Deve ter pensado que o tio violento, após riscar o carro, queria incriminá-la! Desesperada, ela resolveu fugir! Hehehe”

O riso de Tiago era de puro prazer. Samael ergueu seu cálice com Sirop de Cassis, e propôs um brinde:

- Ao crime!

Tiago ergueu seu cálice e concluiu:

- Ao crime! Seremos grandes sócios, Samael! Você tem os mesmos gostos que eu! Percebi isso logo que vi esse biombo chinês ai no canto! É uma cópia idêntica daquele da história da Agatha, não? “Um cadáver atrás do biombo”, é esse o nome, não é?

- Que engraçado você comentar isso, meu caro Tiago! Esse é mesmo um biombo igual ao descrito na história, mas você deve saber que, se um biombo pode ocultar um cadáver, também serve para ocultar pessoas vivas…

Ao ouvir isso, Tiago olhou diretamente para o biombo, já sabendo o que esperar… Duas pessoas saíram de trás dele. Samael falou em um tom muito formal:

- Permita-me apresentar-lhe estes cavalheiros. São o Xerife Poio e o Delegado Quin Linhares. Creio que eles tem algo para você…

Enquanto o Xerife Poio sacava um par de algemas e se aproximava de Tiago, o delegado Quin falou solenemente e em voz clara:

- Tiago Ruas! Você está preso pelo assassinato de seu tio, Tommy Ruas. Você tem o direito de permanecer calado…

FIM

1 Comentário

  1. adrianastrix disse,

    # Esse conto é delicioso, Sam. Mas eu preferia o título antigo. :P

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