Juntos para Sempre

Junho 21, 2008 at 12:09 am (Contos) (, , )

um conto de Lorde Samael Darcangelo,

dedicado `aquela que foi sem nunca ter sido

CAPÍTULO UM – O BRINDE LARANJA

O restaurante Pour Tours, ao contrário do que se poderia esperar, é um lugar sofisticado, localizado `a beira-mar, de onde podemos vislumbrar a magnífica ponte Hercílio Luz, em Florianópolis. Trata-se de um ambiente aconchegante, onde, além das melhores iguarias da culinária catarinense, os fregueses ainda podem se deliciar com música ao vivo, tudo no melhor estilo HardRock Café.

Nesta noite, a mesa principal do requintado restaurante, está ocupada por um casal um tanto singular. O homem de aspecto sombrio é realmente alto, cerca de 1.83m, possui cabelos e olhos negros que só colaboram para aumentar o aspecto taciturno de seu semblante. Samael Darcangelo é o seu nome, e, aos 28 anos, ele é um dos mais aclamados personagens do cenário empresarial. Sua companhia de desenvolvimento, Cabalco S.A., fabrica as mais sofisticadas peças para o setor automotivo. É sabido que todo sucesso da empresa deve-se a brilhante mente por trás daqueles olhos negros.

Nesta ocasião, porém, poucos homens olhariam duas vezes para Samael. Sentada à frente do mesmo, está sua esposa, uma ruiva de rosto delicado e de grandes olhos amendoados. A garota tem apenas 19 anos e resplandece sua juventude em cada gesto. Seu jeito meigo e sensual, aliado a uma voz angelical, são capazes de prender a atenção de qualquer um que fite aqueles olhos por mais de dois segundos. Com certeza, Jane Finn é uma daquelas poucas mulheres que ainda detêm o antigo poder de destruir corações.

Ela está encarando Samael nos olhos, e só agora ele parece perceber que algo incomoda sua esposa. Por que ela não estaria feliz no jantar em que os dois comemoram o seu aniversário de casamento? Ela reclama:

- EU NÃO ACREDITO! No nosso aniversário de casamento, você convida um estranho para jantar conosco!

- Ora, Jane, seja prática! Você sempre disse que queria morar na Lagoa, não disse? Este corretor de imóveis arranjou um apartamento de cobertura perfeito para nós! Já negociei tudo por telefone e neste jantar iremos selar o contrato! Ele irá conosco hoje mesmo até a cobertura e entregará as chaves do imóvel! Você deveria agradecer a minha generosidade!

Jane respondeu, visivelmente irritada:

- Ora! Porque justamente no nosso jantar, NESTA DATA?

- Querida! Sou um homem muito ocupado, não tive tempo de atender o Sr. Mitáfilo antes e só vi as fotos da cobertura. Por que não aproveitar esta oportunidade? Vamos lá, examinamos o local e já despachamos o tal “Mitáfilo”…

Sorrindo maliciosamente, ele acrescentou:

- Afinal de contas, você também precisa me dar alguma coisa hoje, não é?

Jane ficou em silêncio, mas a ira crescia em seu peito: “PORCO!” – esta palavra quase escapou de sua boca, mas felizmente, o autocontrole era uma de suas virtudes.

Nesse instante, o tal Sr. Mitáfilo entrou no restaurante. Localizou rapidamente a mesa certa e em segundos já cumprimentava efusivamente o casal Darcangelo.

Mitáfilo sentou-se à mesa. Era um homem alto, loiro, com olhos verdes pastosos e um aspecto um tanto quanto bovino. Algum apostador diriaa que sua idade beirava os trinta anos. Qualquer pessoa que olhasse tal figura, com seus óculos fundo de garrafa e seu bigode estilo escovinha, logo definiria a profissão do mesmo: corretor de imóveis.

Jane Finn, ainda inconformada com a presença do homem, nem perdeu tempo com um segundo olhar sobre o recém chegado. No entanto, Mitáfilo, que estudara detalhadamente toda a vida do casal, também os analisava:

“Hummm… Esse Samael parece mesmo ser esperto… Não gosto de gente que olha muito fixo nos olhos… Vou ter que ser mais esperto que ele… E a garota? Meu Deus, que coisa linda! Nossa senhora, ela tem só dezenove anos! Também, esse cão argentino deve ter assaltado a maternidade!”

Em voz alta, Mitáfilo declarou:

- Sr. Samael! Faz tempo que eu tento marcar um encontro com o senhor! E que oportunidade esplêndida é esta que aqui se apresenta, pois estou tendo também o prazer de conhecer sua jovem esposa.

- Ah! Tive a maior sorte! Pode-se dizer que assaltei a maternidade!

Mitáfilo relembrou o que havia pesquisado nos jornais de seis anos atrás:

Samael conheceu Jane através da internet. Ambos participavam de uma lista de fãs de Agatha Christie. Talvez fosse este o único passatempo ao qual se permitia o então atarefado universitário, porém, foi o suficiente para conhecer a garota e, mesmo apesar da diferença de idade, após dois anos do primeiro encontro, veio o casamento.

Jane Finn levantou-se e dirigiu-se a copa do restaurante. Samael, sem ao menos notar que sua esposa saira, disse a Mitáfilo:

- Logo após o jantar, iremos verificar o imóvel. Você trouxe o contrato e as chaves?

- Perfeitamente! Com certeza o senhor está fazendo um dos melhores negócios imobiliários da cidade, blá, blá, blá…

- Por favor! Não comece com essa conversa fiada de vendedores! – dizendo isso, Samael apanhou do bolso interno de sua jaqueta um frasco, de onde retirou e engoliu uma pequena pílula marrom.

Mitáfilo sabia que Samael estava tomando o remédio para seu enfraquecido coração, cuja fragilidade congênita fora uma herança maligna do pai argentino. No entanto, o que mais chamou a atenção do astuto Mitáfilo, foi o palm top que ele pode vislumbrar rapidamente quando a jaqueta foi aberta. O famoso palm top onde Samael armazena todos os seus projetos mais importantes! O empresário não confiava em ninguém quando estava desenvolvendo um novo produto e, fora esse palm top, a única outra cópia do projeto da nova peça que prometia revolucionar o mercado de automóveis estava trancafiada em um cofre de banco. Sem sombra de dúvida, o segredo contido naquele minúsculo equipamento valia alguns milhões de dólares.

Jane Finn voltou com uma surpresa. Trazia consigo um baldinho com gelo e dentro dele uma latinha do famoso refrigerante de laranja, conhecido por todos como Sukita. A latinha já estava aberta, pronta para o consumo. Sorrindo, com seu ar angelical, a jovem colocou o balde bem na frente de Samael, dizendo em tom irônico:

- Querido! Você não pensou que eu iria me esquecer, não é?

Samael, com um sorriso amarelo, explicou para o confuso Mitáfilo:

- Minha bem humorada esposa, sempre que pode oferece uma lata dessa deliciosa bebida para o seu “tio Sama”. Tudo bem, amore, deixe estar que a noite ainda é uma criança…

Mitáfilo ficou pensativo, uma idéia se formou em sua mente. Pedindo licença, ele se afastou da mesa. Voltou um pouco mais tarde, com outro balde de gelo e outra latinha de Sukita, pronta para beber. Ele a colocou em frente à Jane Finn e explicou, piscando um olho:

- Um presente meu para que o jovem casal possa brindar apropriadamente o seu aniversário de casamento desse modo tão inusitado.

Jane sorriu. “Esse tal Mitáfilo tem um bom senso de humor!” – ela pensou.

Eram 22:30 e as cortinas do palco principal subiram naquele exato instante. A banda Mundus Mulieris iria iniciar a sua apresentação. O líder e vocalista da banda era Pete Death, o irmão caçula de Samael.

Seu parentesco era somente pela parte de mãe, o pai de Pete era brasileiro mesmo. Talvez por isso, os dois nunca chegaram a manter um bom relacionamento. Para o grande empresário, o poeta cantor nunca passaria de um fracasso ambulante. O fato de Pete priorizar outras coisas na vida, que não o sucesso financeiro, era algo incompreensível.

A esposa de Samael, no entanto, devia pensar bem diferente, pois seus olhos ficaram úmidos e a emoção em seu rosto era visível quando Pete saudou o público. Mitáfilo notou a reação de Jane e concluiu que ao menos desta vez, o boato que corria nas altas rodas da sociedade era verdadeiro: “Jane e Pete vinham mantendo um caso há meses”.

Mitáfilo fitou os olhos de Samael, tentando adivinhar se este sabia que sua cabeça estava sendo enfeitada, porém o mega empresário parecia indiferente. Ao terminar de ouvir a saudação de Pete, ele comentou:

- Veja só! Esse daí é meu meio irmão. Meio mesmo sabe? Duvido que algum dia ele se torne algo inteiro! Ponha algodão nos ouvidos, você vai precisar!

- Silêncio! – Jane interrompeu – Vamos ouvir!

Pete Death começou a cantar, com uma voz grave, prematura para seus 19 anos, mas que combinava perfeitamente com os seus 1.90m e seu aspecto de viking. Ele parecia estar olhando fixamente para a mesa onde se encontrava o trio. A canção começou assim:

“Estátuas e cofres e paredes pintadas, ninguém sabe o que aconteceu…”

Samael sussurrou para seu convidado:

- Com certeza ele não sabe mesmo o que acontece… Também pudera! Abandonou os estudos antes de completar o segundo grau!

Jane Finn fulminou o marido com um olhar. Mitáfilo mal pode conter o riso. A música continuava…

“Me diiiiizzzzzz, porque que o céu é azul? Me explique a grande fúria do mundo…”

Samael olhou para Mitáfilo e “respondeu”:

- Eu não disse que ele largou os estudos? O céu é azul porque a nossa ionosfera retêm todas as outras cores do espectro solar, deixando apenas a gama azul passar! E o que ele quer saber sobre a fúria do mundo? Ora bolas! O universo se originou em uma imensa explosão! É claro que o mundo tem que ser furioso!

Mitáfilo teve que se conter para não gargalhar muito alto. Jane ao contrário, extremamente vermelha, disse entre os dentes:

- Nunca! Nunca em minha vida conheci alguém tão frio como você!

- Jane! Que injustiça! Vamos deixar para acertar isso mais tarde, em nossa nova cobertura…

- Pois fique sabendo que você vai somente com o Sr. Mitáfilo conhecer esse lugar. Eu estou com dor de cabeça e vou para casa!

- Ora amore… Tudo bem, não vamos nos estressar… Olha só, está começando a música que Pete fez para nós! Você me dá o prazer desta dança?

Jane deixou Samael conduzi-la a pista de dança, apesar de saber que a letra de “Eduardo e Mônica” não fora escrita por Pete para “Samael e Jane”…

Mitáfilo ficou sozinho na mesa.

Assim que a apresentação terminou, o casal voltou para a mesa. Pete Death, muito aplaudido, sequer voltou ao camarim, ao invés disso, aproximou-se do irmão:

- Olá Pessoal! Tio Sama! Jane! Hmmm… senhor?

Samael apresentou:

- Este é o corretor Mitáfilo. Estamos fechando um bom negócio hoje à noite.

- O quê! Aproveitando o aniversário de casamento para fechar negócios? Esse meu mano velhaco não tem jeito mesmo, não é Jane?

Dizendo isso, Pete apanhou a latinha de Sukita de Jane e aproximou dos lábios para tomar um gole. Samael, aborrecido, deteve o gesto de Pete:

- Pare! Não estrague o nosso “brinde laranja”!

Jane retirou a lata de sukita das mãos do cantor e disse suavemente:

- Não irrite os mais velhos, Pete. Deixe-me brindar com o tio Sama… afinal são quatro anos de casamento! Sou uma heroína, não sou?

Mitáfilo acompanhava a cena, ansioso. Samael também apanhou sua lata e entrelaçou seu braço com o de Jane. Ele disse:

- A você Jane! O melhor negócio que já fiz em minha vida!

Jane fitou os olhos escuros de samael e respondeu:

- Pela felicidade!

No telão localizado no fundo do restaurante, um vídeo exibiu uma imagem de um rolo de capim imenso, que passou rolando pela tela.

De braços entrelaçados, cada um bebeu um gole de sua respectiva lata de refrigerante. Instantes depois, Samael ainda sorria, porém a expressão no rosto de Jane era de horror. Ela engasgou… Seu rosto ficou vermelho. Ela tentou desesperadamente sussurrar algo, enquanto três homens atônitos a deitavam no chão do restaurante. Para-médicos foram imediatamente chamados, porém era muito tarde… O tempo de vida de Jane Finn neste mundo estava esgotado.

 

 

CAPÍTULO DOIS – A INVESTIGAÇÃO

O delegado Quin Linhares, especialmente designado para cuidar do caso do restaurante Pour Tours, já estava ciente do escândalo que o assassinato de Jane Finn causará na alta sociedade florianopolitana. Ele comentava com seu amigo e colaborador em muitos casos, o xerife Poio:

- Poio! Que calamidade! Uma garota bela como Jane Finn, estimada por todos que a conheciam! E agora isto, envenenamento por arsênico! Por quê? Não faz sentido!

Poio argumentou:

- Você já ficou sabendo que ela e o irmão de Samael estavam tendo um caso? Pelo menos metade das fofocas da alta sociedade giravam em torno desse assunto! Pode ter sido um crime passional…

- Duvido muito… Esse Samael é do tipo que só parece pensar em negócios, no entanto, é uma possibilidade que não devemos descartar, porém, falta algo… E se fosse Pete Death? O que ele ganharia matando a esposa de Samael? Jane vem de família pobre… Se Samael fosse a vítima… Daí sim eu compreenderia os motivos de Pete Death, mas não visualizo como ele pode ter colocado o veneno na bebida.

O xerife Poio alisou sua barbicha e falou:

- O que eu não entendo é o cloral! A lata de Sukita de Jane continha uma dose fatal de arsênico e a de Samael continha cloral! Em alta dose, é também um veneno mortal, porém, a dose presente na Sukita faria Samael cair em sono profundo em no máximo meia hora, sem correr maior risco de morte! Um autêntico “boa noite Cinderela!”

O delegado Quin, fitando seu tabuleiro de xadrez preferido, disse, animando-se:

- A presença desse cloral terá que ser explicada por esse tal Mitáfilo! Trancafiamos o homem agora há pouco! Um garçom viu o elemento jogando para longe um pequeno frasco branco, logo na hora do tumulto. E o que havia no frasco senão cloral?

A situação de Mitáfilo complicara-se muito, principalmente com a descoberta de que sua identidade era falsa, tão pouco ele havia sido corretor na vida. Ninguém do ramo imobiliário conhecia o sujeito. O verdadeiro corretor, responsável pela cobertura, disse que Mitáfilo apresentara-se como um cliente interessado em comprar o imóvel e obtivera através deste pretexto as chaves para uma visita ao imóvel. O xerife Poio disse:

- Ele tinha o cloral, está mentindo sobre sua identidade e, portanto, seus motivos são desconhecidos. Há menos que ele tenha uma história muito boa, o mistério logo estará resolvido. Uma noite trancado em uma cela quatro por quatro é um dos melhores remédios para problemas de amnésia…

Relendo o material já obtido sobre o caso, O delegado Quin expressou seu maior desejo naquele momento:

- Se nós pudéssemos ter acesso à mente dessas pessoas… se pudéssemos saber o que estão pensando…

 

CAPÍTULO FINAL – PENSAMENTOS

Pete Death:

Sentado no sofá de seu pequeno apartamento, esse jovem viking de 1.90m já havia consumido mais de dois terços de uma garrafa de tequila José Cuervo. No entanto, a dor em seu coração estava além da capacidade de cura do álcool. Ao fitar a cama onde ele e Jane haviam se encontrado tantas vezes nos últimos meses, ele não pode deixar de pensar:

“Jane! Ah Jane! Nunca mais…”

Ele queria fugir com a garota. Tantas vezes ele propôs para ela, ali mesmo: “vamos fugir”; “vamos viver como hippies modernos!”; “eu, você e o verde sem fim…”

E agora ela estava morta! Samael! Maldito Samael, ele havia descoberto tudo e resolvera se vingar, matando a criatura mais linda que já existiu no mundo… O quê fazer? O poder de Samael certamente impediria a justiça… E de que adiantaria a justiça agora? Afinal, Jane estava morta!

Em cima da mesinha, perto do sofá, Pete havia colocado dois objetos. À esquerda estava seu violão, parceiro de muitas aventuras, à sua direita, estava um objeto mais sinistro, um Taurus .32, carregado com seis pequenos projetis. Pete tinha que fazer uma escolha. Pegar seu violão e continuar sua vida, continuar a criar, continuar a viver, pois a música era a sua vida… Ou…

Tomando mais um gole de tequila, Pete moveu o braço em direção à mesa, murmurando o apelido carinhoso de sua amada:

- Miss Jane, estou indo…

 

Samael:

Deitado sozinho em sua cama, Samael tentava afastar alguns pensamentos até então estranhos em sua mente:

Morta…

O que havia dado errado entre eles? Será que era o jeito calado dele? Quantas demonstrações de amor ele dera para a garota nesse tempo todo? Roupas, perfumes, carros, iates… Todo seu esforço na empresa… tudo apenas para Jane se orgulhar dele… Onde ele falhará? O que o dinheiro não pode comprar?

Morta…

E agora, essa sensação estranha… muito além da perda de um bom negócio… Essa sensação de que algo sempre iria faltar em sua vida, algo muito importante…

Morta…

E a culpa era dele! Fora ele quem caira na conversa fiada de Mitáfilo! Para agradar Jane, ele a havia exposto a um elemento estranho, que agora já se sabia que era um impostor!

“Ah! O cretino vai pagar carro por isso! Nem que eu gaste toda minha fortuna… Esse cão não perde por esperar…”

Mort…

Samael interrompeu seus pensamentos, virou-se para o lado, apanhando o jornal do comércio e começou a analisar as cotações da bolsa:

“Hummm… Bons negócios à vista!”

 

 

Mitáfilo:

Mitáfilo não conseguia fechar os olhos naquela noite. Trancafiado na cadeia, as paredes pareciam estar se encolhendo sobre ele… Que avalanche toda era aquela por cima dele? Como tudo pudera dar tão errado? O que fazer agora?

“Aquele cretino do Samael já devia saber que eu era um farsante. O cão sabia que eu só estava interessado naquele Palm top!”

Realmente, Mitáfilo era um dos mais discretos e bem pagos espiões industriais do mundo. O plano para roubar os segredos do último projeto de Samael significariam sua aposentadoria… Porém…

“A história das latas de Sukita foi perfeita, eu pude colocar a dose de cloral para a pequena Jane quando fui buscar a lata na copa do restaurante. Pronto, a garota ia dormir com os anjos… Logo surgiria a oportunidade para colocar o sonífero também na bebida de Samael…”

Mitáfilo levantou-se e começou a caminhar em círculos pela cela… Seu pensamento voava:

“Quando Jane disse que não iria mais conosco visitar o imóvel, tudo ficou mais fácil. Eu nem acreditei quando eles saíram para dançar, me deixando sozinho na mesa! Muita sorte… Eu deveria ter desconfiado que era armação…”

O jovem espião esmurrou a parede de pedra, machucando seus dedos:

“Troquei as latas! Deixei Jane para beber a lata pura de Samael e Samael beberia o cloral que eu já havia posto na outra! Tudo simples. Jane e Pete vão para um lado, eu, Samael dopado e seu palm-top para o outro…”

“E agora? O que eu faço? Confessar tudo seria admitir que sou um espião e logo descobrirão meus outros serviços sujos… e… e… Eu não vou sair daqui!”

O suor escorria pelo rosto de Mitáfilo, o pavor estava estampado em sua face:

“Eu não vou mais sair daqui… Eu não vou mais sair daqui…”

 

 

E os mortos? No que pensam os mortos?

Aquela bela garota, que o mundo outrora conhecera como Jane Finn, sequer lembrava o nome que havia usado em vida. Ela passara incontáveis eras apenas caindo, caindo, caindo… Rumo a este lugar. Este lugar, cujo nome ela não queria pronunciar de modo algum. E ali estava ela, em pé, às margens de um estranho rio de água verde, que corria lentamente… Ela fitava aquela água quase parada com um olhar cada vez mais perdido.

O céu a sua volta era cinza, pesado e opressivo e caía uma garoa muito fria e gelada, enevoando o ambiente. Todo o resto eram pedras e desolação.

A sensação de perda que Jane sentia era enorme. Ela já não lembrava de mais nada de sua vida recém passada, exceto a de que perderá algo muito importante, algo precioso…

Se ela já não podia mais lembrar do amor, por outro lado, o ódio que dominara seu coração ainda estava muito quente dentro dela. Um ódio que ela podia exprimir numa só palavra: Samael!

Maldito! Se ele tivesse morrido, as coisas seriam diferentes! Ela não estaria ali… Disso ela não esquecia:

“Coração fraco… Veneno na bebida… Samael morto!”

Porém, o que havia dado errado? Por que ela havia provado de seu próprio veneno?

A felicidade agora era apenas uma ilusão. À distância, ela podia distinguir alguns vultos, todos tão irreais…

Se ela ainda pudesse reconhecer o mundo a sua volta, perceberia o jovem de aspecto viking que estava parado bem ao seu lado. Em sua mão ainda havia uma Taurus .32, mas ele logo a deixou cair. Seus olhos tristes também estavam fixos nas águas verdes daquele lento e monótono rio e ele também já não compreendia mais o sentido da palavra “amor”, somente restara a sensação de perda e de vazio.

E, assim, Jane Finn e Pete Death terminaram juntos para sempre, nesse estranho lugar onde “esperança” é uma palavra sem significado.

F I M

1 Comentário

  1. adrianastrix disse,

    # Outro de meus preferidos. Só pra massagear seu ego mais um bocadinho, Sam, o capítulo final foi uma de suas melhores idéias. =3

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