O Mistério do Carro Roubado
Acontece com todo mundo. Cedo ou tarde, você pode ser a próxima vítima…
Certo dia, fiquei acordado até às 04:30 da madrugada, determinado a detonar o jogo para PC And Then There Were None. Quase consegui, mas tive que parar no capítulo oito por ser absolutamente impossível jogar de olhos fechados. Além do mais, eu tinha que trabalhar na manhã seguinte, de modo que minha aventura noturna não foi mesmo uma boa idéia.
Ao meio-dia, exausto, cheguei em casa, pronto para almoçar, tomar banho e ir dormir. Revisando as tarefas, notei que o segundo ato, tomar banho, esbarrava em um pequeno problema doméstico: não tinha mais desodorante em casa. Enquanto meu almoço ficava pronto, peguei o carro e fui até a Farmácia do Walmir, meu amigo, para comprar o produto. Voltei para casa, almocei, tomei banho e fui dormir.
Tive sonhos agitados, nos quais incontáveis rolos de capim passavam rolando por vastidões sem fim, ao som de High Plains Drifter.
Acordei às 17:00, com a tia e a mãe solicitando meus serviços de motorista para irmos até o mercado fazer compras. Estava chovendo, mas mesmo que não estivesse seria impossível nos dirigirmos até o mercado por um pequeno detalhe: o carro não estava mais na frente de casa!
Com a calma de um mordomo inglês, comuniquei para minha tia que o veículo havia sido furtado. Minha mãe, numa reação perfeitamente condizente com seu status, desatou a rir. Eu corri embaixo da chuva até a garagem onde deixamos o carro guardado. Conforme o que eu já esperava, ele também não estava lá!
Voltei para casa ensopado. Minha mãe ainda estava rindo e uma outra tia, italianíssima, que havia chegado ao local, repetia sem parar:
“maaáááÁÁÁÁ!!!!!”
Felizmente, nessas horas é preciso alguém com tino para agir. Minha mãe pegou o telefone e fez uma ligação!
“Óbvio! Temos que ligar para a polícia!” – pensei eu – “Minha mãe sabe tudo!”
Infelizmente, supervalorizei a perspicácia da Pissit (apelido da minha mãe). Ao invés da polícia, ela telefonou para uma amiga para contar a fofoca do momento: “Nosso carro foi roubado!”
Até aquele momento, eu não estava nervoso, mas aquilo foi a gota da água. Fiquei indignado com a Pissit! Assim que ela desligou, telefonei para a seguradora e fui orientado para ir até a delegacia registrar o Boletim de Ocorrência. Graças a ajuda de uma tia, consegui uma carona e fomos até a Delegacia da Polícia Civil, onde expliquei que o carro tinha alarme e trava, mas mesmo assim havia desaparecido da frente da nossa casa durante o dia.
Uma vez de posse do número do Boletim de Ocorrência, minha tia me deu uma carona de volta para casa, onde eu ainda tinha que ligar para a seguradora. Uma leve depressão se abateu sobre mim, pois pela primeira vez eu estava contando o prejuízo: franquia do seguro, mais o IPVA, mais o seguro novo… Além do transtorno de ter que arranjar um outro carro tão bom quanto o que eu tinha e que ficasse dentro do valor da carta de crédito, etc..
Aquilo não podia ficar assim! Estava na hora de usar as pequenas células cinzentas, bancar o Hercule Poirot e, sem esperar pela polícia, recuperar eu mesmo o veiculo furtado! Será que era possível realizar um feito dessa magnitude? Poderia o grande Samael Fauntleroy Darcangelo desvendar esse mistério dantesco?
Naquele exato momento, passávamos em frente a Farmácia do Walmir e eu vi ele… bordô metálico, placa IFX… Ele! O meu carro! Estava estacionado na frente da farmácia!
Duas linhas de pensamento bem claras se formaram em minha mente. A primeira dizia que os ladrões passaram mal durante a fuga e resolveram parar na farmácia para comprar remédios. A segunda linha dizia que eu havia simplesmente esquecido o carro na frente da farmácia desde o meio-dia.
Apesar da primeira hipótese ser a mais plausível, na verdade constatou-se que eu realmente havia esquecido o carro na frente da farmácia. Ocorreu que eu fui de carro comprar o desodorante e, estando exausto, esqueci que tinha ido de automóvel e voltei para casa a pé, nas quatro patas.
Tive muito trabalho para cancelar o Boletim de Ocorrência. No entanto, antes mesmo de ir até a delegacia de novo, para não correr o risco de ter o carro guinchado na rua, tirei ele da frente da farmácia e coloquei de volta na garagem. Foram apenas 500 metros, mas posso dizer que vivi a emoção de dirigir um carro roubado!
E assim, mais um mistério foi esclarecido graças as minhas pequenas (minúsculas, insignificantes) células cinzentas!
Vítima: Samael
Detetive: Samael
Culpado: Samael
É, pessoal, acontece com todo mundo. Cedo ou tarde, você pode ser a próxima vítima… da idade!
FIM
adrianastrix disse,
Agosto 11, 2008 às 11:27 am
# Esse é o dom do cara de tornar as situações mais simples e mais comuns em algo de rolar de rir. Você tem que revisar aquele do Jesus, Sam. Ele também merece um lugarzinho aqui. xDD