Jangada Amarela
Dedicado para Lisa, Sabrina, Luciana (todas elas), Raquel, Daniel, André, Manoela e a todos os demais fãs de um certo quarteto de Liverpool…
“The fool on the hill sees the sun going down
And the eyes in his head sees the world spinning round…”
“Um mistério digno dos livros de Agatha Christie”.
Era desta forma que os jornais estavam tratando o intrigante caso do Homem do Piano. Tudo havia começado há algumas semanas, em uma estrada praiana da ilha de Sheppey, no condado de Kent (sul da Inglaterra). Já era fim de tarde quando George, o guitarrista aposentado, avistou um homem seminu saindo do mar. Pensando tratar-se de um naufrago, o ex-guitarrista se apressou em socorrer o sujeito. No hospital da cidade, os médicos que o examinaram diagnosticaram estafa devido a um profundo esforço físico. O naufrago tinha uma aparência mista entre o latino e o inglês clássicos. O tom de sua pele indicava que ele havia passado bastante tempo sob efeito do sol.
O mais estranho, contudo, era que o homem não falava uma palavra sequer. Apesar de reagir a estímulos e mostrar que tinha reflexos e compreendia o que estava ocorrendo a sua volta, nem mesmo a famosa equipe de psiquiatras liderada pela Dra. Luthien Bertiniel fora capaz de arrancar uma palavra sequer da boca do pobre coitado. Claro que a equipe da Dra. Bertiniel não se esqueceu de deixar o taxímetro ligado enquanto tentava fazer o homem falar. Deste modo, os psiquiatras é que não saíram no prejuízo ao final das frustradas tentativas.
O caso rapidamente ganhou os jornais do país. Que estranho homem era aquele, que surgira quase nu em uma praia remota do país? Por que não falava? Que estranhos horrores haviam ocorrido com o mesmo? E os farrapos de roupa que ele vestia? Por que as etiquetas de tais peças de roupas haviam sido cortadas? Nada fazia sentido.
Por uma feliz casualidade do destino, Paul, o famoso empresário do mundo musical, responsável pela descoberta das Spice Girls, estava justamente de férias naquela região e, como todo mundo, correu para o hospital a fim de ganhar uma publicidade gratuita ao lado do homem desmemoriado. O encontro foi registrado por jornalistas do Daily Mirror e, num momento de inspiração, Paul se ofereceu para tocar uma canção ao piano para ver se amenizava o semblante perturbado do estranho paciente. Foi uma sorte. Bastou avistar o piano na sala de música do hospital, que o naufrago se atirou a ele e começou a tocar uma melodia que logo foi reconhecida pelos presentes: Fool on the hill.
No dia seguinte, estava estampado em todos os jornais: “Homem do Piano se comunica somente através da música”.
As mais fantasiosas teorias surgiram em todos os cantos. A que ganhou mais força foi logicamente a que fazia mais sentido para os telespectadores (em sua maioria fãs de Big Brother Inglaterra). A teoria afirmava que o homem era um inglês que havia sido abduzido por alienígenas há mais de 150 anos. Viajando na nave espacial, ele só conseguia se comunicar com os seres extraterrestres através da música de um piano. Agora, quando os ET’s o haviam devolvido à Terra, o homem do piano só conseguia se comunicar através da música. Tal teoria foi corroborada pela descoberta de que um piano de cauda havia desaparecido no condado de Blackburn, Lancashire, há exatamente 150 anos. Foi feita até uma missa em desagravo à memória do pároco local daquela época, que havia sido acusado de sumir com o tal piano em troca de dinheiro para as reformas da sua igreja.
O empresário Paul não perdeu tempo e adquiriu todos os direitos de reprodução e distribuição das músicas produzidas pelo desmemoriado. Enquanto isso, a teoria da abdução por alienígenas sofreu um grande abalo. O mesmo George que havia encontrado o homem resolveu investigar o caso mais profundamente e acabou localizando na mesma praia, a apenas algumas centenas de metros do local, destroços de uma jangada amarela.
Foi então que uma carta anônima chegou ao Daily Mirror, esclarecendo todo o caso. A carta estava assinada pelo Sr. U. N. Owen, que afirmava ser um ex-agente secreto cubano e que preferia permanecer incógnito devido à dramática revelação que iria fazer.
Segundo o Sr. Owen, havia mais de uma década que o ditador cubano Fidel Castro ordenara a construção de uma área 51, altamente sigilosa, em sua ilha. Tal área secreta se destinava à criação do “super socialista”, o homem perfeito e fiel ao regime. Durante todo esse tempo, crianças haviam sido seqüestradas de todos os cantos do mundo e levadas para tal área secreta, onde sofriam todo tipo de experiência. O tal pianista desmemoriado fora seqüestrado de Portugal quando criança e desde então tinha sido forçado a se comunicar com o mundo somente através do piano. A esperança de Castro era produzir um ser geneticamente capaz de igualar as composições de Mozart e de Beethoven, só que em ritmo de Salsa.
Em desespero, o homem do piano havia conseguido arrancar estacas da cerca amarela que cercava toda a área 51 cubana e, com elas, fez uma jangada para fugir em direção a Miami. Infelizmente, ele era um músico português e não um marinheiro e, por causa disso, errou o caminho, vindo parar na Ilha de Sheppey.
O caso provocou então uma comoção nacional! Apesar de os mais céticos acharem a história um pouco inverossímil, a grande maioria dos ingleses, seguidos pelos europeus, seguidos pelo resto do mundo, logo estava idolatrando o homem do piano e sua luta dramática pela liberdade. Fotos de satélite até mostravam que em algum ponto da ilha cubana havia realmente algo amarelo, que poderia ser a tal cerca. No entanto, um pesquisador desocupado notou que um dos pedaços de madeira que fora encontrado na praia inglesa tinha um carimbo onde se podia ler: “Made In Liverpoo…”. Alguns mandaram o desocupado arranjar o que fazer e outros botaram ainda mais lenha na fogueira: “Castro anda roubando nossa madeira!”. Já havia até proposta de guerra contra Cuba.
Alheios a esse bafafá todo, Paul e George não perderam tempo, marcando logo uma série de shows com o pianista cubano, que sairia em turnê internacional, apresentando composições de sua própria autoria para se comunicar com o mundo. Alguns compositores de música clássica criticaram o evento, alegando que as composições não tinham nada de Mozart ou de Beethoven. Na verdade, eram até bem ruinzinhas. No entanto, a grande maioria logo censurou tais criticas, afirmando que partiam de despeitados, inconformados com o sucesso de um pobre latino de aparência inglesa.
Epílogo:
Na madrugada após o primeiro grande concerto em Picadilly Circus, Paul e George se preparavam para abrir um champagne em uma luxuosa sala de um hotel cinco estrelas. O show fora um tremendo sucesso e as vendas dos produtos do Homem do Piano estavam a mil. Naquele momento, alguém bateu na porta do quarto. Era Richard, um amigo de longa data, que estava chegando de longa viagem. Após os abraços e cumprimentos efusivos, Richard quis logo saber:
- Que história de Homem do Piano é essa? Acharam uma Mina de Ouro, hein?
Paul não conteve o riso e respondeu:
- Alguns acham ouro, meu amigo, outros são sábios o suficiente para pintar estacas de amarelo.
Desconfiado, Richard, que não era muito famoso por suas habilidades mentais, perguntou:
- Tá! Mas o que aconteceu por aqui enquanto eu estive fora?
Nesse momento, saiu do banheiro e juntou-se aos três amigos ele, o Homem do Piano. De banho tomado e tendo tirado através de produtos químicos o tom de bronzeado artificial que um óleo produzia em sua pele, ele parecia mais inglês do que nunca. Richard exclamou:
- John!
E o Homem do Piano respondeu:
- Parabéns! Você acertou o meu nome!
O rosto de Richard era só pontos de interrogação. Os outros três se apiedaram e Paul iniciou as explicações:
- Após o sucesso artificial que consegui com as Spice Girls, eu conclui que o público aceita qualquer coisa, desde que você ofereça essa coisa envolvida em uma comovente lorota qualquer. Lembra do caso das Spice, não? Cinco modelos que juntei num apartamento e todo mundo acreditou que aquelas beldades haviam se conhecido por acaso e que eram pobres e que a música havia mudado suas vidas, blá, blá, blá… Enfim, eles aceitam qualquer absurdo. Lembra das histórias que inventamos sobre a capa daquele disco antigo?
“Pois então. Desta vez eu precisava lançar um tipo de som novo para ganhar mais alguns milhões. A idéia foi usar os conhecimentos ao piano do nosso John aqui. Só que, apesar de ser um esforçado estudante de piano, ele jamais chegará a ser um virtuose. Nesse caso, o que fazer? Bom, com a ajuda do George, armamos a história do naufrago pianista.”
George interrompeu:
- Foi simples. Bastou fazer os contatos corretos para assegurar que a imprensa estivesse presente. John se mostrou um excelente ator e a única parte complicada foi pintar aqueles pedaços de pau de amarelo para lançar a história sobre o refugiado cubano! Caramba! Tanto cuidado e mesmo assim deixei passar aquele carimbo…
John sentou no sofá e desatou a rir:
- Caras! Ainda não entra na minha cabeça como é que acreditaram nessa história!
Richard estava atônito. Lentamente, a explicação entrava em sua mente. Ele disse:
- Seus sujos! Nem me convidaram para participar disso! E tiveram muita sorte, ainda por cima! Conseguiram vestir o John com roupas que não o denunciaram!
Paul se sentiu ofendido:
- Sorte uma ova! Cortamos todas as etiquetas que pudessem revelar que os trapos que preparamos para ele eram ingleses! Sorte uma ova, foi talento!
- HAHAHAHAHAHAHA!
Nesse ponto, todos ergueram suas taças e brindaram felizes. Afinal de contas, era inegável que aquele quarteto tinha um longo histórico de talento nesse tipo de negócio.
FIM
Através do Espelho
“Estou amarrada.”
Este foi o primeiro pensamento que veio a cabeça da bela Alice tão logo ela recuperou a consciência. Ainda entorpecida, ela procurou identificar o lugar onde se encontrava. Era uma sala comercial pequena, vazia e mal iluminada. A cadeira onde a haviam amarrado estava há dois metros da vitrine. Entre a cadeira e a janela da vitrine havia uma pequena mesa, muito próxima da garota e onde vários objetos estavam cobertos por uma toalha xadrez. Um ruído de “tique-taque” indicava o tipo de objeto que estava por baixo do pano.
Alice sentia seus pulsos dormentes, pois as cordas que a prendiam estavam muito apertadas. Ainda em estado de torpor, ela olhou através da vitrine. Podia ver o movimento de pessoas na calçada. Algumas até mesmo olhavam para dentro da loja, mas todas pareciam ignorar a situação da garota. Por que isso? Ela sabia que o Rio de Janeiro era uma cidade violenta, mas será que as pessoas já estavam habituadas a ver garotas de quatorze anos amarradas em cadeiras? Alice fixou o olhar para além da rua e percebeu, do outro lado, uma praça com um belo chafariz central. Foi então que sua mente clareou…
Ela lembrou que havia marcado um encontro para às 09:00 horas com um amigo que havia feito pela internet. Lembrou que ele havia sugerido o encontro em frente a uma lojinha, perto da grande praça com chafariz… Uma loja inconfundível, pois pertencera ao avô dele. Uma loja antiga, que estava sempre fechada e que, ao invés do vidro da vitrine, tinha um grande espelho ocupando seu lugar.
Alice lembrou-se de ter esperado pelo amigo em frente a esse grande espelho. Lembrou-se de que ele chegou pontualmente no horário marcado e, com um tom muito simpático, abriu a loja e convidou-a a conhecer seu interior. Apesar de ser o primeiro encontro, a curiosidade da garota falou mais alto, afinal, o que havia por trás do espelho? Tão logo entrou na loja, o seu “amigo da internet” fechou rapidamente a porta e colocou um pano encharcado em um líquido nauseante na boca da jovem. Ela tentou lutar, mas aquele cheiro era insuportável… Ela tremeu ao se lembrar daquela súbita perda de consciência, sendo forçada a desmaiar nos braços de…
– SAMAEL!!!!
A garota gritou o nome e, como que por encanto, um figura vestida de negro surgiu atrás dela. De onde ele havia surgido? Alice podia virar a cabeça e fazendo isso percebeu que, além da porta principal, ao lado da vitrine, havia também uma porta menor no fundo da salinha. Samael havia entrado por aquela porta dos fundos e parecia muito bem humorado quando falou:
– Jovem garota! Você fica ainda mais linda com esses grandes olhos negros transmitindo todo esse pavor. Linda mesmo! Sabe o veneno se vestir em melhor frasco?
- Me solte! Seu… Seu… LOUCO! Essa brincadeira não tem a menor graça! Meus braços doem! ME SOLTE!!!!
Samael riu e Alice percebeu na mesma hora a gravidade da situação em que se encontrava, pois aquele riso não tinha nada de divertido. Era um riso doentio, o tipo de som que só podia vir de um lunático.
– Tenho um presente para você, minha bela morena! Você ainda não viu aqui nesta mesinha? Ah! Mas que tolice a minha! Deixei o presente coberto! Permita-me mostrá-lo melhor…
Com um gesto teatral, Samael retirou a toalha xadrez e Alice pode ver o seu presente. Sobre a mesinha havia um relógio despertador atado por vários fios, alguns vermelhos e outros laranjas. Todos os fios estavam atados a três cilindros marrons. Onde ela havia visto aqueles cilindros antes??? Pareciam tão familiares… Sim, ela lembrava!
Uma vez ela visitou seu pai no trabalho. Foi bem no dia em que ele estava supervisionado as atividades para a implosão de um prédio. Eles usavam aqueles mesmos cilindros marrons… DINAMITE! Uma bomba!
O rosto de Alice ficou branco. Seus lindos olhos negros ficaram ainda maiores. Se ela nunca tivesse visto, na certa acharia que tudo era uma brincadeira. No entanto, ela conhecia dinamite e agora estava olhando para uma bomba-relógio. Samael notou o olhar de compreensão da garota e riu ainda mais alto:
– Vê a hora no despertador? 11:35! Por um momento, achei que você não acordaria a tempo de ver o espetáculo. Sabe, eu te quero bem acordada e olhando para esse relógio, pois quando ele chegar ao meio-dia… Vai ser um estouro! HUAHUAHUAHUAHUA!
Alice começou a gritar a plenos pulmões. Impossível que as pessoas passassem na calçada sem ao menos notar seu desespero. Samael aproximou-se do rosto da garota. Ela parecia ainda mais frágil, pois sua constituição delicada e morena contrastava muito com a pele branca e a altura do seu algoz. O gaúcho de mais de um metro e oitenta colocou a mão sobre o ombro da garota e sussurou gentilmente em seu ouvido:
– Shhhh… Não adianta gritar. A sala é toda revestida e a prova de som. Como aquelas salas de interrogatório policial, sabe? E aquela história que te contei do meu avô era mentira. Nunca tive avô nenhum. Comprei a sala usando um nome falso e fiz algumas reformas nela… Tudo para este grande dia! Tudo para o dia de sua morte, querida Alice! Não vai me agradecer?
Dizendo isso, Samael beijou a face da garota que fe uma careta de nojo. Havia algo de obsceno naquele beijo. Apavorada, Alice deixou as lágrimas correrem soltas pelo seu rosto, mas não sem antes morder violentamente a orelha do lunático. Ele afastou-se.
– Por quê? – gritou Alice – por quê???
Samael tirou uma faca de pescador da cintura e colocou-a sobre a mesa, bem próximo a Alice. Então ele afastou-se em direção a porta dos fundos e disse, imitando a voz de uma criança:
– O cão argentino de três cabeças… O reizinho de papel… Lálálááá… Gostei da mordida! Eu me divertiria mais tempo com você, mas sabe, meio-dia vem aí! Vai ser um espetáculo para se ver de longe! Divirta-se sozinha, olhando para a faca que eu deixei aí pertinho. Se pelo menos tuas mãos não estivessem atadas a cadeira, não é mesmo??? HAHAHA!
Ele saiu pela porta dos fundos, não sem antes amarrar um fio de nylon na maçaneta, esticando-o até algum ponto do outro lado e deixando aquela porta entreaberta.
11:37
Alice estava sozinha. Tantas pessoas passando pelas ruas e ninguém tinha noção do seu drama! Ela pôs-se a gritar, pois talvez alguém no beco dos fundos ouvisse seus apelos, já que a portinha estava entreaberta. “SOCORRO!!! SOCORRO!!! SOCORRO!!!!!!”
11:39
Nenhuma resposta. O beco dos fundos era obviamente um vão entre dois prédios comerciais, que estavam vazios naquele domingo. Se Alice estivesse gritando no beco, talvez alguém chegasse a ouvi-la até mesmo na rua em frente, mas ela estava dentro da loja, o som mal chegava ao beco. Esperar que seus gritos fossem ouvidos na parte da frente da loja era loucura.
Ela precisava se desamarrar! Engoliu o choro e lutou para conter as lágrimas que insistiam em sair de seus olhos. Aquele era um momento de lutar! Lutar por sua vida!
11:42
Alice começou a estudar sua situação. A cadeira era de madeira e estava cimentada ao solo. Os pés e as mãos não estavam amarrados entre si. Samael havia amarrado cada membro a um braço ou perna da cadeira. Alice tentou alcançar os nós que prendiam seus braços com a boca, mas eles estavam na parte de baixo da cadeira, inacessíveis. Do outro lado do vidro-espelho, uma mãe passava orgulhosa pela calçada com seu carrinho de bebê. Alice pode ver a mãozinha da criança balançando alegremente um chocalho.
11:43
Os nós das cordas não chegavam ao alcance de sua boca de maneira nenhuma. As mãos já estavam roxas devido ao esforço. Desesperada, a garota começou a balançar e espernear freneticamente, na esperança de que a cadeira quebrasse! Uma luta em vão. Sua voz já estava desaparecendo devido aos gritos histéricos.
11:46
Exausta e dolorida, Alice não conseguiu mais evitar que o rio de lágrimas voltasse a correr por sua face. Sua vida estava chegando ao fim e não adiantava mais lutar.
Ela sempre havia sido uma garota depressiva, sempre se sentira fragilizada com as artimanhas que o amor aprontava ao seu delicado coração de adolescente. No entanto, acima de tudo, ela sempre cultivara a amizade de todos. Era incontáveis seus amigos. Os amigos que a mantinham viva, longe da depressão e pelos quais ela fazia tudo o que fosse possível! “Alice não tem inimigos”. “Todos adoram a Alice”… E agora? Não importa a quantidade de amigos, as pessoas sempre morrem sozinhas.
11:47
“Vou morrer. Minha hora chegou.”
11:48
“Vou morrer. Minha hora chegou.”
11:49
“Vou morrer. Minha hora cheg… RAQUEL!”
O que é que a Quelzinha estava fazendo atrás do vidro-espelho? E justamente olhando para dentro? Não, peraí! Quelzinha estava ajeitando o cabelo no lado espelhado! Ajeitando o cabelo como se esperasse alguém para um encontro! E então, Alice compreendeu tudo!
A jovem prisioneira lembrou-se que Quelzinha, sua melhor amiga e confidente, fazia parte da mesma lista de e-mails e também vivia pegando no pé de Samael Darcangelo!
Claro! Ele havia marcado secretamente um encontro com a Quelzinha ao meio-dia! Em frente a loja onde… onde…
11:50
O desespero e a vontade de salvar a amiga injetaram um novo ânimo em Alice. Novamente, ela tentou forçar o braço da cadeira, primeiro com a mão direita. Nada. Depois, com a mão esquerda, aquela mais próxima de onde Samael havia deixado a faca.
Foi então que ela notou que os nós não viravam para a parte de cima, mas havia um certo movimento em todo o braço da cadeira, como se este não estivesse tão fortemente fixado na base da cadeira quanto o outro. Ela contorceu sua cabeça e conseguiu olhar para a base onde o braço estava fixado. Realmente, o parafuso que fixava o conjunto parecia estar mais frouxo que o da direita. Se ao invés de tentar virar os nós das cordas para o lado de cima, ela tentasse movimentar o braço todo para frente e para trás… Havia uma chance!
11:51
O parafuso afrouxava cada vez mais. A cada movimento de Alice, mais sua mão se aproximava da faca. Enquanto isso, Quelzinha andava de um lado para o outro na calçada, logo ali, tão perto e ao mesmo tempo tão distante, sem ao menos imaginar o horror que estava acontecendo ali, atrás do espelho. Alice implorou: “Ah, Quel! Saia daí!”.
11:53
A garota se debulhou em lágrimas, pois seus esforços deram certo. A faca estava finalmente em sua mão esquerda! Com muita determinação, Alice virou a lâmina em direção ao pulso e pôs-se a movimentar o braço novamente para frente e para trás. A cada movimento, a lâmina cortava, ora um pedacinho da corda, ora um pedacinho da carne da jovem. O sangue começava a molhar o braço da cadeira, tornando ainda mais fácil o deslizar da lâmina.
11:56
Os punhos roxos, o sangue jorrando da mão esquerda, o suor escorrendo por todo o corpo, mas ainda assim, Alice tinha uma expressão de triunfo no rosto. Seu braço esquerdo estava finalmente livre das cordas. Ela cerrou a mão em torno da faca e começou a cortar o restante das cordas. “Depressa! Depressa! Faltam menos de cinco minutos agora…”.
11:58
O outro braço estava solto, restavam os pés! Com a mão direita, seria mais rápido! Do outro lado da vitrine, Samael apareceu para o encontro com Quelzinha. O desgraçado chegou com beijinhos e FLORES!
Ele trazia flores para a garota! Com um gesto teatral, ele apontou para o outro lado da rua, na direção de uma barraca que vendia maçãs do amor na praça. Então era isso? O miserável havia convidado a inocente Quelzinha para ver Alice explodir?
“Ah, Não! Você vai ter uma bela surpresa, seu cretino!”
11:59
Com a fúria no coração, Alice cortou o último nó que a mantinha presa!
“ESTOU LIVRE!”
“E agora? A porta da frente trancada! Desarmar a bomba? Como??? nem pensar! Menos de dois minutos agora… Já sei! Fugir!”.
Reunindo o resto de suas forças, ela correu em direção ao fundo da loja, em direção a sua liberdade, em direção a sua salvação!
Ao abrir a porta dos fundos, Alice puxou o fio de náilon que Samael havia prendido à maçaneta e ao gatilho de uma Winchester 22…
BANG!
12:00
– O que foi isso?
– Isso o quê, minha querida?
– Não sei, Samael… Você não ouviu? Parecia um tiro, vindo lá de trás daquela loja com o espelho…
– Não escutei nada, mas falando naquele espelho, é da loja do meu avô, sabia? Quer retocar sua maquiagem na frente dele antes de irmos ao shopping? Mais tarde eu pego a chave da loja e podemos vir visitá-la. Aposto que você vai se surpreender com o que tem ali dentro.
12:01
Em frente ao espelho, Quelzinha, uma linda carioca na mais tenra idade, ajeitava seu cabelo sob o olhar carinhoso e ávido de desejo de um amigo que demonstrava estar afim de algo mais. Ela agradecia aos céus por terem colocado tal anjo de ternura em sua vida e considerava seriamente a possibilidade de começar um namoro sério.
E do outro lado do espelho…
No chão da loja, uma mancha escarlate ia aumentando de tamanho. O líquido causador da mancha saia do peito de outra bela jovem carioca. Ela jazia deitada e seus lindos olhos negros já estavam turvos demais para verem qualquer coisa. Havia apenas o frio que aumentava e um último som que a acompanharia na sua passagem para onde quer que ela estivesse indo: “TRIMMMM TRIMMMM TRIMMMM…”
Era o som do despertador da falsa bomba que começara a tocar precisamente às 12:01.
FIM
A Garota Sem Nome
Lista dos Personagens:
Samael – o leonino.
Strix – a irmã emotiva.
May – a irmã fria e racionalista.
Dr. Tiago Hastings – o velho psiquiatra.
Garota Sem Nome – todo homem sabe quem ela é, muito embora ela nunca possa ser exatamente descrita. Para Poe, ela se chamava Lenore. Para o Flávio Dickson, ela tem olhos cinzentos. Por consenso geral, ela está no céu cercada de diamantes. Enfim, o que mais importa na Garota Sem Nome é que ela existe.
Capítulo Um – O Insano
O céu estava nublado e pesadas nuvens deixavam a paisagem com um ar plúmbeo que servia perfeitamente para o autor mostrar que andou lendo Baudelaire. As condições do tempo refletiam as aflições que estavam atormentando a mulher que olhava pela janela. Ela não tinha mais do que quarenta anos, embora poucos pensassem que ela tinha menos que isso, muito embora ninguém fosse louco de manifestar esse pensamento em voz alta. Seu corpo ainda era esbelto, cabelos e olhos castanhos, cerca de 1.70m de altura e o vestido rosa que ela usava valorizava imensamente suas curvas naturais. Enquanto ela estava ali, fitando a casa alaranjada a poucas dezenas de metros de distância, um pensamento mal formado veio à sua mente:
“Será que estamos agindo corretamente?”
Não! Ela não podia pensar assim! Ela era Strix Darcangelo e não se deixaria levar pela dúvida. Decidida, Strix dirigiu o seu olhar para dentro da mansão. Procurou focalizar sua mente nos detalhes da ampla sala de estar. Reparou nos livros empoeirados na estante, reparou nas cortinas puídas e nas manchas amarelas que estavam aparecendo no teto. Olhou também para suas mãos e se perguntou mentalmente: “Há quanto tempo eu não vou a um salão de beleza decente?”. Imbuída de uma nova determinação, Strix afastou as nuvens cinzentas da dúvida que tentavam encobrir sua mente.
“Sim! Aquilo era necessário! Necessário antes que a decadência se tornasse um destino inevitável. May estava certa!”
Aliás, lá estava May! Sentada na poltrona, em frente ao Dr. Tiago Hastings, falando e assumindo o controle da situação. Ao se aproximar dela, Strix recordou como sua irmã era inteligente. Algumas pessoas julgavam que May era apenas uma balzaquiana fria, mas esse não era o pensamento de sua irmã. Para Strix, May era a garantia do pensamento lógico, a garantia de que havia uma saída para as cortinas puídas e para a poeira nos móveis.
“É melhor eu prestar atenção naquilo que minha irmã está dizendo. Preciso colaborar!”
May Darcangelo era dois anos mais jovem que Strix, porém seu olhar era muito mais penetrante. O verde de seus olhos parecia aumentar enquanto ela falava. A única demonstração de que a bela mulher estava nervosa era o constante ajeitar de uma mecha de cabelos castanhos, que volta e meia insistia em cair sobre seus olhos amendoados.
Ela falava com um velho amigo da família Darcangelo, o sexagenário Dr. Tiago Hastings, um renomado psiquiatra da cidade grande.
- Mais uma vez, devo agradecer por sua visita, Dr. Hastings. Gostaria que os fatos fossem diferentes, mas infelizmente a realidade é uma só. Meu pobre irmão não anda bem. Ele está ficando louco!
O velho psiquiatra acomodou-se na poltrona e ajeitou seus óculos. Olhou por sobre as lentes para May e só então respondeu:
- Minha querida! A Psiquiatria é um ramo da Medicina muito complexo. Para um leigo, às vezes é fácil confundir sintomas que são apenas stress e cansaço com algum tipo de insanidade. Diga-me, o que a leva a crer que o seu irmão esteja enlouquecendo?
Strix intrometeu-se na conversa, falando apressadamente:
- Tudo começou alguns meses atrás, doutor! Sempre tivemos um padrão de vida elevado e vivíamos bem e felizes nesta casa. Como o senhor sabe, Samael cuida dos negócios que eram de nosso pai e nunca deixou faltar nada por aqui. No entanto, de uma hora para outra, ele começou a dispensar os criados! Veja os móveis como estão! E não parou por ai! Ele começou a vender os carros! Imagine que estamos reduzidos a uma simples BMW preta. Nós tentamos avisá-lo que ele estava enlouquecendo e…
May fulminou a irmã com um severo olhar e a interrompeu:
- Você está muito exaltada, Strix. Acalme-se e deixe que eu termino a explicação.
Voltando-se novamente para o Dr. Hastings, May continuou a narrar os fatos:
- O senhor é amigo de Samael há anos. Sabe como nosso irmão sempre foi estranho. Aquelas manias de cheirar sempre as últimas páginas de livros, jornais e revistas. Aquele hábito de agitar garrafas de uísque no escuro, jurando que um dia alguma delas vai brilhar! Aquela fobia que ele sente de livros muito grossos… Enfim, o senhor sabe que ele sempre foi cheio dessas esquisitices!
O Dr. Hastings comentou:
- Sim, eu já conhecia essas manias, mas…
- Sim! Eu sei o que o senhor vai dizer, doutor. O problema é que de uns tempos para cá, mais precisamente desde que completou seu quadragésimo aniversário, Samael tem piorado. Esse pão-durismo repentino e absurdo do qual a May estava falando! Lembre-se de que ele é o dono da maior empresa exportadora de café aqui de Barbacena! Mesmo assim, ele dispensou nossos criados, vendeu os carros e só fala em economia, como se tivesse descoberto agora, na idade do lobo, o significado dessa palavra!
May retomou o fôlego e continuou:
- Há três semanas começou o que eu e minha irmã consideramos o mais grave de tudo. Ele está tendo alucinações!
O Dr. Hastings moveu-se mais para a beira da poltrona, pois finalmente alguma coisa interessante parecia estar ocorrendo. Ele perguntou:
- Alucinações? Como assim? Descreva-as, por gentileza.
Strix escondeu o rosto entre as mãos, visivelmente abalada. May atendeu o pedido do doutor:
- Em uma de suas sandices econômicas, meu irmão colocou a casa laranja ao lado da nossa mansão para alugar. Um mês atrás, uma jovem estudante se mudou para lá. Sabe como é, uma garota da capital que veio tentar o Vestibular por aqui. Ela não tem mais do que dezessete anos. O senhor entende? Na primeira semana, ela promoveu algumas festinhas com amigas, coisas de jovens, nada que nos incomodasse. Pude notar que ela passa a maior parte do dia estudando…
“Só que meu irmão começou a dizer que a garota, que ele apelidou de Garota Sem Nome, estava flertando com ele! Ocorre que a janela do quarto dele dá vista exatamente para a casa laranja! Ele disse que, ao ler na sacada de seu quarto, via essa garota lançando olhares para ele. O tonto chegou a comprar flores! E foi bater na porta da casa dela, mas ela sequer o atendeu, claro!”
- Trata-se de uma moça muito honesta e bem-educada! – afirmou Strix – e é uma grande bobagem meu irmão ficar chamando-a de Garota Sem Nome. Bastaria olhar no contrato de aluguel da casa para saber que ela se chama…
- Querida, Strix! – esbravejou May – se você ficar me interrompendo para contar detalhes inúteis, eu jamais conseguirei colocar o doutor a par dos fatos essenciais!
Strix calou-se, baixando os olhos. May continuou sua narrativa:
- Então, tudo ficou pior. Samael passou a afirmar que a “Garota Sem Nome” dançava envolta em véus pelos campos de nossa propriedade! Sempre à noite! Ele passou a chegar em casa do trabalho e praticamente trancar-se no quarto, imediatamente. Imagine que um dia ele chegou em casa com um potente binóculos! E equipado com visão noturna, ainda por cima!
“E o pior de tudo! Agora, nesta última semana, ele está dizendo que a tal Garota Sem Nome está aparecendo no seu quarto para fazer a… cof, cof… Dança do Ventre! Doutor… ele realmente está louco!”
O psiquiatra estava pensativo. Os fatos narrados eram graves. Ele perguntou:
- Onde está Samael, agora? Tenho que examiná-lo. Realmente, alucinações desse tipo podem requerer tratamento urgente.
May respondeu, levantando-se:
- É exatamente isso que queremos, doutor! Curar nosso irmão! E também salvar o patrimônio de nossa família. Se ele não estiver em condições de continuar dirigindo as empresas… bem, eu e minha irmã teremos que assumir tudo enquanto ele se recupera!
- Certamente, minha cara! Certamente! Mas deixem-me ver Samael e fazer uma avaliação de seu quadro clínico.
Strix indicou, de modo triste:
- Vamos subir ao segundo andar. Nesta hora, ele já está trancado no quarto, como de costume…
Enquanto subiam, May teve um acesso horrível de tosse. O clima estava tenso.
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Capítulo Dois – A Serpente Que Dança
Alheio ao teor da conversa que estava sendo mantida no andar de baixo, Samael espreguiçava-se diante do espelho. Ele havia acabado de sair do banho e vestia apenas a calça de seu pijama e um par de chinelos de pano. Depois de examinar bem a sua aparência, que ele ainda julgava de um modo muito otimista ser a de um legítimo garanhão, ele vagou pelo quarto e deu duas voltas na fechadura da porta. Estava quase na hora do crepúsculo e em breve ele sabia que iria haver ação.
Ele ajeitou seus cabelos castanhos em frente ao espelho, notando mais uma vez através de seus olhos negros, com prazer, que a beleza de antigamente ainda não havia abandonado seu corpo leonino. O que a falta de um par de óculos não faz…
Seus pensamentos eram indagatórios:
“Por que ele nunca havia se casado?”
“Talvez porque eu nunca encontrei a mulher certa.” – pensou Samael, respondendo a sua própria questão e rindo muito da resposta clichê.
“Alias, minhas irmãs também parecem não ter tido sucesso em suas buscas.” – acrescentou Samael, deliciando-se com tal pensamento maldoso.
Ele olhava para a imensa cama de casal na qual dormia sozinho. Ficou imerso em seus pensamentos por mais algum tempo. Então sentiu um suave sopro em sua nuca. Virou-se rapidamente! Lá estava ela, entre ele e a porta para a sacada, sorrindo como sempre.
Sem dúvida, era uma bela garota. Seu corpo esguio exalava um aroma delicioso, instigante. Era como se fosse um convite para Samael: “Venha! Venha!”
Ela não dizia nada. Não, a Garota Sem Nome nunca havia pronunciado sequer uma palavra. Naquela noite, Samael notou que além de estar envolta em véus laranjas, a garota trazia consigo uma écharpe azul. Os pés bem torneados da bela estavam descalços. Samael olhou fascinado para a correntinha que a garota usava no tornozelo esquerdo. Reparou nisso enquanto ela erguia a perna até a altura do peito dele e o empurrava para a cama.
Ele ficou olhando extasiado, enquanto a Garota Sem Nome dançava sensualmente para ele. Normalmente, a garota evitava qualquer tentativa de aproximação maior por parte de Samael. Aliás, em certa ocasião, na qual ele havia decidido se aproximar a qualquer custo, uma lata de spray de pimenta fora imediatamente apontada na direção de seus olhos e isso o convencera que era conveniente manter a distância regulamentar imposta pela Garota Sem Nome. Ele podia olhar, ele devia olhar, mas ele não podia tocar. E, caramba, como isso o excitava.
Normalmente, a dança acabava com a garota lhe vendando os olhos com um pano de seda negro e desaparecendo logo a seguir. Porém, dava para perceber que dessa vez seria diferente. A Garota Sem Nome se aproximou dele, colocou-lhe a venda nos olhos e pela primeira vez amarrou uma de suas mãos na cabeceira da cama com a écharpe. Aquilo era uma novidade! E mais novidades estavam reservadas para aquela noite. Antes que desse por si, Samael percebeu que toda a roupa que estava vestindo já havia sido subtraída de seu corpo.
“E agora? O que vai ser?” – pensou Samael.
O silêncio foi sua resposta. Após ter tirado as roupas do leonino, a Garota Sem Nome havia se afastado e Samael não conseguia escutar mais nada. Instantes depois, ele ouviu um clique, algo suave, algo como o girar de uma chave. Ouviu vozes, vozes cada vez mais próximas… sentiu que a porta do seu quarto estava sendo aberta e…
- AAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
Foi Strix quem gritou, horrorizada.
O Dr. Hastings e May adiantaram-se para dentro do quarto. Lá estava Samael, deitado em sua cama, com uma das mãos envolta em uma echarpe azul que o prendia a um dos lados da cama e vestido com a roupa com a qual viera ao mundo. May berrou:
- Mas o que significa isso?
Tirando a venda de seus olhos e se desvencilhando da écharpe azul, Samael respondeu, confuso:
- Onde ela está? Onde ela foi?
O Dr. Hastings encontrou a calça de pijama de Samael caída aos pés da cama e a arremessou para ele, dizendo:
- Calma! Calma, amigo! Não tem ninguém aqui além de nós. Você teve apenas uma alucinação. Coloque logo essa calça e recomponha-se!
Samael vestiu o pijama rapidamente e começou a caminhar de um lado para outro, agitado.
- Não! Não! Ela estava aqui agora mesmo! Ela! A garota da casa laranja! A Garota Sem Nome!
- Samael! Me escute! Não tem ninguém aqui! Você teve apenas uma alucinação! E eu já lhe disse mil vezes que aquela garota tem um nome! Ela se chama…
- Como? – interrompeu, Samael, sem prestar a mínima atenção no que May lhe dizia – como vocês entraram aqui? A porta estava trancada!
O Dr. Hastings manteve-se firme e impassível. Longos anos como psiquiatra mostravam a ele qual a atitude correta a adotar:
- A porta estava fechada, mas não trancada, Samael.
- Então ela passou por vocês! Ela… a garota…
- Ninguém passou por nós no corredor.
Samael titubeava. Correu para a porta que dava acesso à sacada, mas descobriu que estava fechada por dentro. Correu de volta e olhou embaixo da cama, mas não havia ninguém escondido lá. Por fim, sentou-se com a cabeça entre as mãos, dizendo:
- Mas eu vi… ela estava aqui… eu… eu…
O Dr. Hastings sentou-se ao lado do amigo e o consolou:
- Tenha calma! Ninguém está livre desse tipo de problema, meu amigo! Você precisa de uma clínica e de repouso adequado! Preferencialmente, longe daqui! Venha! Coloque-se sob meus cuidados e eu garanto que você vai ficar bom!
Apenas May e o doutor acompanharam a busca que Samael realizou no recinto. Logo após ter gritado, Strix saiu correndo do quarto. Somente agora, ela retornava, chorando muito. May a abraçou com força, murmurando:
- Coragem… coragem… falta pouco agora…
Samael levantou-se, dizendo:
- Você está certo, doutor! Eu… eu não sei o que está acontecendo comigo, mas isso não pode continuar assim. Estou em suas mãos!
O Dr. Hastings segurou o amigo pelo ombro e disse:
- O melhor é retirá-lo daqui o quanto antes. Eu o espero lá embaixo, pois vamos partir para a clínica de repouso agora mesmo.
May soltou Strix e agiu de modo prático, como sempre:
- Coragem, mano! Você está coberto de suor! Tome outro banho para se recompor enquanto eu preparo suas roupas.
Ao ouvir isso, Samael lembrou-se de algo:
- O closet! Eu não procurei no closet! Talvez ela esteja…
May conteve o movimento de Samael, berrando e ameaçando esbofetear o irmão:
- Não tem nenhuma garota aqui! Nunca teve! Você está tendo alucinações! Pare com isso!
Samael voltou a baixar a cabeça, concordando com a irmã. Só lhe restava aceitar os fatos.
—
Capítulo Três – Cria Cuervos…
Samael já estava dentro do carro do Dr. Hastings. Strix derramava ainda algumas lágrimas. O psiquiatra, antes de entrar no veículo, voltou por um momento até a porta de entrada da Mansão Darcangelo e falou com May:
- Não se preocupe! Vamos afastá-lo de tudo o que pode estar causando seu problema. Entenda apenas que o tratamento pode ser longo e complexo. Acho que vou transferi-lo imediatamente para fora do Brasil, para a clínica que tenho em Londres. Lá, ele terá mais condições de se recuperar.
May esboçou um sorriso:
- Não poupe despesas para curá-lo, doutor! Acho que um tempo fora do Brasil será mesmo o melhor para ele. Mas… e quanto aos negócios?
- Samael está visivelmente perturbado demais para continuar gerenciando qualquer tipo de empreendimento. Vou conversar com ele para que assine amanhã mesmo os documentos necessários para abdicar de sua parte na empresa, passando o controle total para vocês duas. Por favor, entrem em contato imediato com seus advogados para preparar toda a papelada necessária, pois com o meu laudo psiquiátrico, a Justiça irá considerar Samael totalmente incapaz e vocês duas serão nomeadas suas curadoras legais sem mais tardar.
Os olhos de May brilharam, mais verdes do que nunca. Ela respondeu:
- Já me antecipei ao senhor, doutor. Falei com nossos advogados na semana passada e já tenho aqui comigo toda a documentação necessária. Basta que Samael assine esses papéis e que o senhor emita logo o laudo. Posso lhe garantir que eu e Strix estamos preparadas para assumir essa responsabilidade! Tudo ficará bem, Dr. Hastings! Por favor, faça com que meu irmão assine a documentação agora mesmo! Não há mais tempo a perder!
O doutor apanhou os papéis que May lhe estendeu e entrou no carro onde estava Samael. Quinze minutos depois, os papéis estavam assinados e os negócios da família estavam agora totalmente em poder das duas irmãs.
—
Cinco minutos depois da partida do doutor e do seu novo paciente, May e Strix estavam de volta ao quarto de Samael. Elas não haviam trocado uma palavra até aquele instante. May abriu a porta do closet de Samael.
A Garota Sem Nome saiu lá de dentro, exclamando:
- Ele quase me procurou aqui!
May olhava para a garota como alguém da alta sociedade olharia para uma dançarina de bar. Havia um certo desprezo em sua voz, quando respondeu:
- Você cronometrou tudo muito bem e agiu rapidamente assim que me ouviu tossir nas escadas. Eu não deixaria ele procurar no closet de modo algum. Enfim, deu tudo certo. Tome! Pegue aqui o seu pagamento e lembre-se de desaparecer desta cidade. Que eu nunca mais veja você aqui em Barbacena!
A Garota Sem Nome recebeu um cheque no valor de R$ 10.000,00. Era exatamente essa a quantia combinada como a última parte do pagamento por aquele serviço que ela vinha fazendo. A garota guardou o cheque e saiu da casa rapidamente, corada de vergonha.
A sempre sonhadora Strix, reclamou com sua irmã:
- Você a tratou muito mal! A pobre criança precisa desse dinheiro para estudar e…
- Strix! Minha boa e ingênua irmã! Agora nós estamos no comando da situação, não percebe? Chega do racionamento daquele maluco! Ele que cure suas loucuras longe daqui! Agora nós temos coisas mais importantes para decidir: quais carros vamos comprar? Quantos criados vamos recontratar? Decoração nova! Salão de Beleza! E festas! Muitas festas! Como sinto falta das festas que havia nessa casa!
Strix animou-se. Enfim, tudo havia dado certo.
- Seu plano foi mesmo brilhante, Mayzinha! Contratar aquela pequena estudante, fazendo-a alugar a casa em frente ao quarto do Samael! E as danças para atrair a atenção de nosso irmão galinha? A garota realmente sabia dançar muito bem a tal Dança do Ventre!
May, orgulhosa e sem falsas modéstias, respondeu:
- Você também foi muito útil, escondendo sempre a escada que a garota usava para subir até a sacada do quarto de Samael. Aliás, quando você berrou daquele jeito histérico eu até fiquei com medo que você tivesse esquecido de fazer sua parte hoje!
- Ora! Você nunca confia em mim! Confesso que fiquei chocada ao ver nosso irmão sem roupas, mas consegui me controlar e saí correndo do quarto para ir rapidamente remover e esconder a escada que a garota usou para subir até a sacada!
May acariciou o cabelo da sua irmã e disse, entusiasmada:
- Muito bem, Flipper! Mas o mais importante mesmo, assim que percebemos que Samael estava ficando louco, era fazer com que ele se convencesse disso rapidamente! E o nosso pequeno estratagema funcionou perfeitamente. Agora, nosso irmão vai ter o tratamento adequado para suas loucuras e nós podemos voltar a ter o padrão de vida que merecemos.
De um modo malicioso, May acrescentou:
- Ele sempre se gabou de ser o “leonino esperto”. Papai sequer nos colocou na presidência junto com ele, nos relegando ao segundo plano. Bem… agora todo o patrimônio da família está em nossas mãos e Samael depende de nossa boa vontade para continuar seu tratamento! Quem é mais esperto agora? Ele ou nós?
—
No dia seguinte, a Garota Sem Nome já havia abandonado a casa laranja. Ela caminhava a pé até os limites da cidade. A paisagem de Barbacena, cheia de campos e bosques, era magnífica. Um verdadeiro cenário de sonhos. Ela reparou em um enorme plátano perto de uma curva da estrada. Uma sombra seria adequada agora, pois a sua mochila já estava ficando pesada.
O céu estava lindo, sem nuvens, com pássaros voando livres pelo ar. Naquele momento, amparada pela sombra da árvore, a Garota Sem Nome queria tudo, menos pensar no que havia feito. Agora ela tinha o dinheiro que antes lhe faltava para iniciar seus estudos. Tudo pelo sonho de uma vida melhor do que aquele inferno que ela conhecera até então. Ela deveria estar feliz, no entanto, a sensação de culpa parecia crescer a cada instante. A culpa crescia como uma sombra… Aliás, era exatamente uma sombra que crescia na relva que a garota estava fitando. A sombra de alguém se aproximando dela naquele exato instante… A sombra de…
- Samael!
A garota gritou aquele nome com um misto de surpresa e medo na voz. Ali estava ele, vestido em um elegante terno preto, olhando para ela com olhos negros e brilhantes. O leonino ser falou em tom jovial:
- Então, finalmente tenho o prazer de escutar a sua voz.
A garota estava confusa:
- Você… Você fugiu do sanatório? Como? Como você me localizou? Você…
Um medo repentino se apoderou da Garota Sem Nome. Ela esboçou um gesto como se fosse começar a correr, mas Samael rapidamente colocou uma das mãos no bolso do terno e disse:
- Nem tente!
Apavorada, a garota ficou imóvel, olhando para ele. Dessa vez, ela o fitava nos olhos, buscando alguma informação sobre o destino que a aguardava, mas logo a vergonha do que havia feito tomou conta do seu ser e ela baixou novamente a cabeça. Samael ordenou:
- Venha! Volte a sentar aqui na sombra dessa árvore, pois é uma hora muito quente do dia para ficar ao sol. Além do mais, tenho uma historinha para te contar…
“Meus negócios na companhia exportadora de café não iam bem. A crise no setor é enorme e eu vi, pela primeira vez na vida, que havia possibilidade da nossa fortuna acabar. Tive que tomar medidas drásticas. Vender patrimônio e fazer um severo racionamento na mansão, buscando economizar o máximo possível para salvar a empresa”.
“Acima de tudo, havia minha responsabilidade para com minhas irmãs. Eu não podia falhar ante os olhos delas. Como contar que estávamos correndo perigo de ficarmos sem nada? Então, para minha grande decepção, elas começaram com aquelas insinuações sobre minha sanidade mental. Fiquei magoado e resolvi só contar sobre o que estava ocorrendo assim que tudo estivesse resolvido”.
“Tão logo você apareceu, eu vi que era obra delas. Um golpe sujo para alegar que eu estava insano! Ah! Malditas! Eu me matando para salvar a empresa e elas tramando algo contra mim! E algo ridículo e sem cabimento, ainda por cima! Desde quando eu me deixaria enrolar por um plano desses? Só mesmo se eu estivesse louco de verdade! Elas devem me achar um tipo muito estúpido para cair em um conto do vigário como esse!”
Com um olhar altivo, indicando a presença de um ego enorme, Samael continuou:
- Decidi que, por tamanha ousadia, elas mereciam uma lição. Uma grande e inesquecível lição!
“Eu fingi entrar no jogo delas. Comprei um binóculos e até levei flores para você, fingindo ter virado um admirador sem juízo. Enquanto isso, preparei meu esquema. Eu sabia que logo elas iriam procurar meu velho amigo, o Dr. Hastings, para que ele corroborasse a história da minha loucura. Por isso mesmo, já deixei-o preparado…”
Pela primeira vez, a Garota Sem Nome interrompeu a narrativa de Samael:
- O doutor? Ele está envolvido nisso?
Samael sorriu:
- Não é só você que tem um preço, garota. Tiago exigiu uma boa quantia para “acreditar” na minha insanidade. Ele também providenciou os papéis da minha suposta transferência para a clínica no exterior. Os advogados da empresa também vieram me avisar que May havia mandado preparar papéis cujo teor literalmente transferia todos os bens da família para ela e Strix. Pedi que atendessem o pedido de minha irmã, com urgência… E pedi também que me ajudassem a realizar algumas transferências ilegais de fundos. Advogados também tem o seu preço… Bom, disso todo mundo sabe.
“Eu já estava esperando por alguma aparição especial sua quando o doutor viesse visitar minhas irmãs na hora marcada por May. A senhorita dança admiravelmente bem, se me permite o elogio… E foi um grande prazer me deixar enlouquecer por você.”
Samael estava sorrindo. A Garota Sem Nome estava corada.
- Você já pode imaginar o resto, não? Ao invés de tentar capitalizar a empresa, desviei todas as suas verbas restantes para uma conta que tenho na Suíça. Deste modo, daqui a alguns dias, quando minhas doces irmãs assumirem os negócios, encontrarão apenas uma companhia falida e cheia de dívidas. Quando isso ocorrer, eu e mais alguns poucos milhões de dólares vamos estar muito bem instalados em algum paraíso fiscal.
Samael ria alto, se divertindo ao imaginar a cara das irmãs. A Garota Sem Nome ergueu-se, sentindo-se de certo modo aliviada com aquela nova situação.
- Você…Você é maquiavélico! O seu plano foi perfeito, mas… porque você veio ao meu encontro? Você… Você…Vai… Me matar?
Samael, ainda com a mão no bolso, aproximou-se da garota e falou em um tom suave:
- Você nunca olhou nos meus olhos de verdade. Se tivesse feito isso em algum momento, teria visto o quanto você realmente me envolveu com a sua dança. Porém, você ainda é jovem demais para perceber esses detalhes. É como se você fosse um sonho bom para mim. Mas eu percebo que jamais daria certo tentar transformar esse sonho numa realidade…
“Todavia, isso não me impede de te dar um presente de despedida…”
Com um gesto teatral, Samael retirou a mão do bolso, estendeu-a e entregou para A Garota Sem Nome um cheque. O valor que estava escrito nele era dez vezes maior do que a quantia que ela cobrara das irmãs Darcangelo.
- Rasgue o cheque que você recebeu da minha irmã! Muito embora nem mesmo ela saiba disso, esse cheque é tão frio quanto um cubo de gelo.
Samael começou a se afastar do local. Nada mais foi dito. Um tardio rolo de capim passou pelo cenário enquanto a Garota Sem Nome derramava lágrimas, observando aquele leonino exótico que desaparecia em uma curva da estrada.
—
Alguns dias mais tarde, na sala da diretoria da Cia. Darcangelo Exportadora de Café Ltda.
As novas responsáveis pela companhia, srta. Strix e srta. May, estavam acabando de tomar conhecimento da contabilidade da empresa.
Neste exato momento, Strix já se encontra desmaiada no chão, onde caiu dura tão logo escutou as palavras “falência imediata” e “miséria absoluta”. Enquanto tentam reanimá-la, May grita histericamente, com a razão abandonando sua mente na mesma velocidade do som de seus gritos:
- NÃÃO!!!! NÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!!!! NÃÃÃÃÃOOOOOOOOO!!!!!!
FIM