Através do Espelho

Agosto 6, 2008 at 9:33 pm (Contos) (, , )

“Estou amarrada.”

Este foi o primeiro pensamento que veio a cabeça da bela Alice tão logo ela recuperou a consciência. Ainda entorpecida, ela procurou identificar o lugar onde se encontrava. Era uma sala comercial pequena, vazia e mal iluminada. A cadeira onde a haviam amarrado estava há dois metros da vitrine. Entre a cadeira e a janela da vitrine havia uma pequena mesa, muito próxima da garota e onde vários objetos estavam cobertos por uma toalha xadrez. Um ruído de “tique-taque” indicava o tipo de objeto que estava por baixo do pano.

Alice sentia seus pulsos dormentes, pois as cordas que a prendiam estavam muito apertadas. Ainda em estado de torpor, ela olhou através da vitrine. Podia ver o movimento de pessoas na calçada. Algumas até mesmo olhavam para dentro da loja, mas todas pareciam ignorar a situação da garota. Por que isso? Ela sabia que o Rio de Janeiro era uma cidade violenta, mas será que as pessoas já estavam habituadas a ver garotas de quatorze anos amarradas em cadeiras? Alice fixou o olhar para além da rua e percebeu, do outro lado, uma praça com um belo chafariz central. Foi então que sua mente clareou…

Ela lembrou que havia marcado um encontro para às 09:00 horas com um amigo que havia feito pela internet. Lembrou que ele havia sugerido o encontro em frente a uma lojinha, perto da grande praça com chafariz… Uma loja inconfundível, pois pertencera ao avô dele. Uma loja antiga, que estava sempre fechada e que, ao invés do vidro da vitrine, tinha um grande espelho ocupando seu lugar.

Alice lembrou-se de ter esperado pelo amigo em frente a esse grande espelho. Lembrou-se de que ele chegou pontualmente no horário marcado e, com um tom muito simpático, abriu a loja e convidou-a a conhecer seu interior. Apesar de ser o primeiro encontro, a curiosidade da garota falou mais alto, afinal, o que havia por trás do espelho? Tão logo entrou na loja, o seu “amigo da internet” fechou rapidamente a porta e colocou um pano encharcado em um líquido nauseante na boca da jovem. Ela tentou lutar, mas aquele cheiro era insuportável… Ela tremeu ao se lembrar daquela súbita perda de consciência, sendo forçada a desmaiar nos braços de…

– SAMAEL!!!!

A garota gritou o nome e, como que por encanto, um figura vestida de negro surgiu atrás dela. De onde ele havia surgido? Alice podia virar a cabeça e fazendo isso percebeu que, além da porta principal, ao lado da vitrine, havia também uma porta menor no fundo da salinha. Samael havia entrado por aquela porta dos fundos e parecia muito bem humorado quando falou:

– Jovem garota! Você fica ainda mais linda com esses grandes olhos negros transmitindo todo esse pavor. Linda mesmo! Sabe o veneno se vestir em melhor frasco?

- Me solte! Seu… Seu… LOUCO! Essa brincadeira não tem a menor graça! Meus braços doem! ME SOLTE!!!!

Samael riu e Alice percebeu na mesma hora a gravidade da situação em que se encontrava, pois aquele riso não tinha nada de divertido. Era um riso doentio, o tipo de som que só podia vir de um lunático.

– Tenho um presente para você, minha bela morena! Você ainda não viu aqui nesta mesinha? Ah! Mas que tolice a minha! Deixei o presente coberto! Permita-me mostrá-lo melhor…

Com um gesto teatral, Samael retirou a toalha xadrez e Alice pode ver o seu presente. Sobre a mesinha havia um relógio despertador atado por vários fios, alguns vermelhos e outros laranjas. Todos os fios estavam atados a três cilindros marrons. Onde ela havia visto aqueles cilindros antes??? Pareciam tão familiares… Sim, ela lembrava!

Uma vez ela visitou seu pai no trabalho. Foi bem no dia em que ele estava supervisionado as atividades para a implosão de um prédio. Eles usavam aqueles mesmos cilindros marrons… DINAMITE! Uma bomba!

O rosto de Alice ficou branco. Seus lindos olhos negros ficaram ainda maiores. Se ela nunca tivesse visto, na certa acharia que tudo era uma brincadeira. No entanto, ela conhecia dinamite e agora estava olhando para uma bomba-relógio. Samael notou o olhar de compreensão da garota e riu ainda mais alto:

– Vê a hora no despertador? 11:35! Por um momento, achei que você não acordaria a tempo de ver o espetáculo. Sabe, eu te quero bem acordada e olhando para esse relógio, pois quando ele chegar ao meio-dia… Vai ser um estouro! HUAHUAHUAHUAHUA!

Alice começou a gritar a plenos pulmões. Impossível que as pessoas passassem na calçada sem ao menos notar seu desespero. Samael aproximou-se do rosto da garota. Ela parecia ainda mais frágil, pois sua constituição delicada e morena contrastava muito com a pele branca e a altura do seu algoz. O gaúcho de mais de um metro e oitenta colocou a mão sobre o ombro da garota e sussurou gentilmente em seu ouvido:

– Shhhh… Não adianta gritar. A sala é toda revestida e a prova de som. Como aquelas salas de interrogatório policial, sabe? E aquela história que te contei do meu avô era mentira. Nunca tive avô nenhum. Comprei a sala usando um nome falso e fiz algumas reformas nela… Tudo para este grande dia! Tudo para o dia de sua morte, querida Alice! Não vai me agradecer?

Dizendo isso, Samael beijou a face da garota que fe uma careta de nojo. Havia algo de obsceno naquele beijo. Apavorada, Alice deixou as lágrimas correrem soltas pelo seu rosto, mas não sem antes morder violentamente a orelha do lunático. Ele afastou-se.

– Por quê? – gritou Alice – por quê???

Samael tirou uma faca de pescador da cintura e colocou-a sobre a mesa, bem próximo a Alice. Então ele afastou-se em direção a porta dos fundos e disse, imitando a voz de uma criança:

– O cão argentino de três cabeças… O reizinho de papel… Lálálááá… Gostei da mordida! Eu me divertiria mais tempo com você, mas sabe, meio-dia vem aí! Vai ser um espetáculo para se ver de longe! Divirta-se sozinha, olhando para a faca que eu deixei aí pertinho. Se pelo menos tuas mãos não estivessem atadas a cadeira, não é mesmo??? HAHAHA!

Ele saiu pela porta dos fundos, não sem antes amarrar um fio de nylon na maçaneta, esticando-o até algum ponto do outro lado e deixando aquela porta entreaberta.

11:37

Alice estava sozinha. Tantas pessoas passando pelas ruas e ninguém tinha noção do seu drama! Ela pôs-se a gritar, pois talvez alguém no beco dos fundos ouvisse seus apelos, já que a portinha estava entreaberta. “SOCORRO!!! SOCORRO!!! SOCORRO!!!!!!”

11:39

Nenhuma resposta. O beco dos fundos era obviamente um vão entre dois prédios comerciais, que estavam vazios naquele domingo. Se Alice estivesse gritando no beco, talvez alguém chegasse a ouvi-la até mesmo na rua em frente, mas ela estava dentro da loja, o som mal chegava ao beco. Esperar que seus gritos fossem ouvidos na parte da frente da loja era loucura.

Ela precisava se desamarrar! Engoliu o choro e lutou para conter as lágrimas que insistiam em sair de seus olhos. Aquele era um momento de lutar! Lutar por sua vida!

11:42

Alice começou a estudar sua situação. A cadeira era de madeira e estava cimentada ao solo. Os pés e as mãos não estavam amarrados entre si. Samael havia amarrado cada membro a um braço ou perna da cadeira. Alice tentou alcançar os nós que prendiam seus braços com a boca, mas eles estavam na parte de baixo da cadeira, inacessíveis. Do outro lado do vidro-espelho, uma mãe passava orgulhosa pela calçada com seu carrinho de bebê. Alice pode ver a mãozinha da criança balançando alegremente um chocalho.

11:43

Os nós das cordas não chegavam ao alcance de sua boca de maneira nenhuma. As mãos já estavam roxas devido ao esforço. Desesperada, a garota começou a balançar e espernear freneticamente, na esperança de que a cadeira quebrasse! Uma luta em vão. Sua voz já estava desaparecendo devido aos gritos histéricos.

11:46

Exausta e dolorida, Alice não conseguiu mais evitar que o rio de lágrimas voltasse a correr por sua face. Sua vida estava chegando ao fim e não adiantava mais lutar.

Ela sempre havia sido uma garota depressiva, sempre se sentira fragilizada com as artimanhas que o amor aprontava ao seu delicado coração de adolescente. No entanto, acima de tudo, ela sempre cultivara a amizade de todos. Era incontáveis seus amigos. Os amigos que a mantinham viva, longe da depressão e pelos quais ela fazia tudo o que fosse possível! “Alice não tem inimigos”. “Todos adoram a Alice”… E agora? Não importa a quantidade de amigos, as pessoas sempre morrem sozinhas.

11:47

“Vou morrer. Minha hora chegou.”

11:48

“Vou morrer. Minha hora chegou.”

11:49

“Vou morrer. Minha hora cheg… RAQUEL!”

O que é que a Quelzinha estava fazendo atrás do vidro-espelho? E justamente olhando para dentro? Não, peraí! Quelzinha estava ajeitando o cabelo no lado espelhado! Ajeitando o cabelo como se esperasse alguém para um encontro! E então, Alice compreendeu tudo!

A jovem prisioneira lembrou-se que Quelzinha, sua melhor amiga e confidente, fazia parte da mesma lista de e-mails e também vivia pegando no pé de Samael Darcangelo!

Claro! Ele havia marcado secretamente um encontro com a Quelzinha ao meio-dia! Em frente a loja onde… onde…

11:50

O desespero e a vontade de salvar a amiga injetaram um novo ânimo em Alice. Novamente, ela tentou forçar o braço da cadeira, primeiro com a mão direita. Nada. Depois, com a mão esquerda, aquela mais próxima de onde Samael havia deixado a faca.

Foi então que ela notou que os nós não viravam para a parte de cima, mas havia um certo movimento em todo o braço da cadeira, como se este não estivesse tão fortemente fixado na base da cadeira quanto o outro. Ela contorceu sua cabeça e conseguiu olhar para a base onde o braço estava fixado. Realmente, o parafuso que fixava o conjunto parecia estar mais frouxo que o da direita. Se ao invés de tentar virar os nós das cordas para o lado de cima, ela tentasse movimentar o braço todo para frente e para trás… Havia uma chance!

11:51

O parafuso afrouxava cada vez mais. A cada movimento de Alice, mais sua mão se aproximava da faca. Enquanto isso, Quelzinha andava de um lado para o outro na calçada, logo ali, tão perto e ao mesmo tempo tão distante, sem ao menos imaginar o horror que estava acontecendo ali, atrás do espelho. Alice implorou: “Ah, Quel! Saia daí!”.

11:53

A garota se debulhou em lágrimas, pois seus esforços deram certo. A faca estava finalmente em sua mão esquerda! Com muita determinação, Alice virou a lâmina em direção ao pulso e pôs-se a movimentar o braço novamente para frente e para trás. A cada movimento, a lâmina cortava, ora um pedacinho da corda, ora um pedacinho da carne da jovem. O sangue começava a molhar o braço da cadeira, tornando ainda mais fácil o deslizar da lâmina.

11:56

Os punhos roxos, o sangue jorrando da mão esquerda, o suor escorrendo por todo o corpo, mas ainda assim, Alice tinha uma expressão de triunfo no rosto. Seu braço esquerdo estava finalmente livre das cordas. Ela cerrou a mão em torno da faca e começou a cortar o restante das cordas. “Depressa! Depressa! Faltam menos de cinco minutos agora…”.

11:58

O outro braço estava solto, restavam os pés! Com a mão direita, seria mais rápido! Do outro lado da vitrine, Samael apareceu para o encontro com Quelzinha. O desgraçado chegou com beijinhos e FLORES!

Ele trazia flores para a garota! Com um gesto teatral, ele apontou para o outro lado da rua, na direção de uma barraca que vendia maçãs do amor na praça. Então era isso? O miserável havia convidado a inocente Quelzinha para ver Alice explodir?

“Ah, Não! Você vai ter uma bela surpresa, seu cretino!”

11:59

Com a fúria no coração, Alice cortou o último nó que a mantinha presa!

“ESTOU LIVRE!”

“E agora? A porta da frente trancada! Desarmar a bomba? Como??? nem pensar! Menos de dois minutos agora… Já sei! Fugir!”.

Reunindo o resto de suas forças, ela correu em direção ao fundo da loja, em direção a sua liberdade, em direção a sua salvação!

Ao abrir a porta dos fundos, Alice puxou o fio de náilon que Samael havia prendido à maçaneta e ao gatilho de uma Winchester 22…

BANG!

12:00

– O que foi isso?

– Isso o quê, minha querida?

– Não sei, Samael… Você não ouviu? Parecia um tiro, vindo lá de trás daquela loja com o espelho…

– Não escutei nada, mas falando naquele espelho, é da loja do meu avô, sabia? Quer retocar sua maquiagem na frente dele antes de irmos ao shopping? Mais tarde eu pego a chave da loja e podemos vir visitá-la. Aposto que você vai se surpreender com o que tem ali dentro.

12:01

Em frente ao espelho, Quelzinha, uma linda carioca na mais tenra idade, ajeitava seu cabelo sob o olhar carinhoso e ávido de desejo de um amigo que demonstrava estar afim de algo mais. Ela agradecia aos céus por terem colocado tal anjo de ternura em sua vida e considerava seriamente a possibilidade de começar um namoro sério.

E do outro lado do espelho…

No chão da loja, uma mancha escarlate ia aumentando de tamanho. O líquido causador da mancha saia do peito de outra bela jovem carioca. Ela jazia deitada e seus lindos olhos negros já estavam turvos demais para verem qualquer coisa. Havia apenas o frio que aumentava e um último som que a acompanharia na sua passagem para onde quer que ela estivesse indo: “TRIMMMM TRIMMMM TRIMMMM…”

Era o som do despertador da falsa bomba que começara a tocar precisamente às 12:01.

FIM

1 Comentário

  1. adrianastrix disse,

    # Esse conto é uma agonia. Lembro-me de que fiquei passada quando acabei de ler pela primeira vez. o_o” Gostei mais do fim que você colocou agora. O outro era legal também, mas deixava a história mais com cara de peoplefic. Agora, ficou mais geral, e mais sombrio. =3

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