Jangada Amarela
Dedicado para Lisa, Sabrina, Luciana (todas elas), Raquel, Daniel, André, Manoela e a todos os demais fãs de um certo quarteto de Liverpool…
“The fool on the hill sees the sun going down
And the eyes in his head sees the world spinning round…”
“Um mistério digno dos livros de Agatha Christie”.
Era desta forma que os jornais estavam tratando o intrigante caso do Homem do Piano. Tudo havia começado há algumas semanas, em uma estrada praiana da ilha de Sheppey, no condado de Kent (sul da Inglaterra). Já era fim de tarde quando George, o guitarrista aposentado, avistou um homem seminu saindo do mar. Pensando tratar-se de um naufrago, o ex-guitarrista se apressou em socorrer o sujeito. No hospital da cidade, os médicos que o examinaram diagnosticaram estafa devido a um profundo esforço físico. O naufrago tinha uma aparência mista entre o latino e o inglês clássicos. O tom de sua pele indicava que ele havia passado bastante tempo sob efeito do sol.
O mais estranho, contudo, era que o homem não falava uma palavra sequer. Apesar de reagir a estímulos e mostrar que tinha reflexos e compreendia o que estava ocorrendo a sua volta, nem mesmo a famosa equipe de psiquiatras liderada pela Dra. Luthien Bertiniel fora capaz de arrancar uma palavra sequer da boca do pobre coitado. Claro que a equipe da Dra. Bertiniel não se esqueceu de deixar o taxímetro ligado enquanto tentava fazer o homem falar. Deste modo, os psiquiatras é que não saíram no prejuízo ao final das frustradas tentativas.
O caso rapidamente ganhou os jornais do país. Que estranho homem era aquele, que surgira quase nu em uma praia remota do país? Por que não falava? Que estranhos horrores haviam ocorrido com o mesmo? E os farrapos de roupa que ele vestia? Por que as etiquetas de tais peças de roupas haviam sido cortadas? Nada fazia sentido.
Por uma feliz casualidade do destino, Paul, o famoso empresário do mundo musical, responsável pela descoberta das Spice Girls, estava justamente de férias naquela região e, como todo mundo, correu para o hospital a fim de ganhar uma publicidade gratuita ao lado do homem desmemoriado. O encontro foi registrado por jornalistas do Daily Mirror e, num momento de inspiração, Paul se ofereceu para tocar uma canção ao piano para ver se amenizava o semblante perturbado do estranho paciente. Foi uma sorte. Bastou avistar o piano na sala de música do hospital, que o naufrago se atirou a ele e começou a tocar uma melodia que logo foi reconhecida pelos presentes: Fool on the hill.
No dia seguinte, estava estampado em todos os jornais: “Homem do Piano se comunica somente através da música”.
As mais fantasiosas teorias surgiram em todos os cantos. A que ganhou mais força foi logicamente a que fazia mais sentido para os telespectadores (em sua maioria fãs de Big Brother Inglaterra). A teoria afirmava que o homem era um inglês que havia sido abduzido por alienígenas há mais de 150 anos. Viajando na nave espacial, ele só conseguia se comunicar com os seres extraterrestres através da música de um piano. Agora, quando os ET’s o haviam devolvido à Terra, o homem do piano só conseguia se comunicar através da música. Tal teoria foi corroborada pela descoberta de que um piano de cauda havia desaparecido no condado de Blackburn, Lancashire, há exatamente 150 anos. Foi feita até uma missa em desagravo à memória do pároco local daquela época, que havia sido acusado de sumir com o tal piano em troca de dinheiro para as reformas da sua igreja.
O empresário Paul não perdeu tempo e adquiriu todos os direitos de reprodução e distribuição das músicas produzidas pelo desmemoriado. Enquanto isso, a teoria da abdução por alienígenas sofreu um grande abalo. O mesmo George que havia encontrado o homem resolveu investigar o caso mais profundamente e acabou localizando na mesma praia, a apenas algumas centenas de metros do local, destroços de uma jangada amarela.
Foi então que uma carta anônima chegou ao Daily Mirror, esclarecendo todo o caso. A carta estava assinada pelo Sr. U. N. Owen, que afirmava ser um ex-agente secreto cubano e que preferia permanecer incógnito devido à dramática revelação que iria fazer.
Segundo o Sr. Owen, havia mais de uma década que o ditador cubano Fidel Castro ordenara a construção de uma área 51, altamente sigilosa, em sua ilha. Tal área secreta se destinava à criação do “super socialista”, o homem perfeito e fiel ao regime. Durante todo esse tempo, crianças haviam sido seqüestradas de todos os cantos do mundo e levadas para tal área secreta, onde sofriam todo tipo de experiência. O tal pianista desmemoriado fora seqüestrado de Portugal quando criança e desde então tinha sido forçado a se comunicar com o mundo somente através do piano. A esperança de Castro era produzir um ser geneticamente capaz de igualar as composições de Mozart e de Beethoven, só que em ritmo de Salsa.
Em desespero, o homem do piano havia conseguido arrancar estacas da cerca amarela que cercava toda a área 51 cubana e, com elas, fez uma jangada para fugir em direção a Miami. Infelizmente, ele era um músico português e não um marinheiro e, por causa disso, errou o caminho, vindo parar na Ilha de Sheppey.
O caso provocou então uma comoção nacional! Apesar de os mais céticos acharem a história um pouco inverossímil, a grande maioria dos ingleses, seguidos pelos europeus, seguidos pelo resto do mundo, logo estava idolatrando o homem do piano e sua luta dramática pela liberdade. Fotos de satélite até mostravam que em algum ponto da ilha cubana havia realmente algo amarelo, que poderia ser a tal cerca. No entanto, um pesquisador desocupado notou que um dos pedaços de madeira que fora encontrado na praia inglesa tinha um carimbo onde se podia ler: “Made In Liverpoo…”. Alguns mandaram o desocupado arranjar o que fazer e outros botaram ainda mais lenha na fogueira: “Castro anda roubando nossa madeira!”. Já havia até proposta de guerra contra Cuba.
Alheios a esse bafafá todo, Paul e George não perderam tempo, marcando logo uma série de shows com o pianista cubano, que sairia em turnê internacional, apresentando composições de sua própria autoria para se comunicar com o mundo. Alguns compositores de música clássica criticaram o evento, alegando que as composições não tinham nada de Mozart ou de Beethoven. Na verdade, eram até bem ruinzinhas. No entanto, a grande maioria logo censurou tais criticas, afirmando que partiam de despeitados, inconformados com o sucesso de um pobre latino de aparência inglesa.
Epílogo:
Na madrugada após o primeiro grande concerto em Picadilly Circus, Paul e George se preparavam para abrir um champagne em uma luxuosa sala de um hotel cinco estrelas. O show fora um tremendo sucesso e as vendas dos produtos do Homem do Piano estavam a mil. Naquele momento, alguém bateu na porta do quarto. Era Richard, um amigo de longa data, que estava chegando de longa viagem. Após os abraços e cumprimentos efusivos, Richard quis logo saber:
- Que história de Homem do Piano é essa? Acharam uma Mina de Ouro, hein?
Paul não conteve o riso e respondeu:
- Alguns acham ouro, meu amigo, outros são sábios o suficiente para pintar estacas de amarelo.
Desconfiado, Richard, que não era muito famoso por suas habilidades mentais, perguntou:
- Tá! Mas o que aconteceu por aqui enquanto eu estive fora?
Nesse momento, saiu do banheiro e juntou-se aos três amigos ele, o Homem do Piano. De banho tomado e tendo tirado através de produtos químicos o tom de bronzeado artificial que um óleo produzia em sua pele, ele parecia mais inglês do que nunca. Richard exclamou:
- John!
E o Homem do Piano respondeu:
- Parabéns! Você acertou o meu nome!
O rosto de Richard era só pontos de interrogação. Os outros três se apiedaram e Paul iniciou as explicações:
- Após o sucesso artificial que consegui com as Spice Girls, eu conclui que o público aceita qualquer coisa, desde que você ofereça essa coisa envolvida em uma comovente lorota qualquer. Lembra do caso das Spice, não? Cinco modelos que juntei num apartamento e todo mundo acreditou que aquelas beldades haviam se conhecido por acaso e que eram pobres e que a música havia mudado suas vidas, blá, blá, blá… Enfim, eles aceitam qualquer absurdo. Lembra das histórias que inventamos sobre a capa daquele disco antigo?
“Pois então. Desta vez eu precisava lançar um tipo de som novo para ganhar mais alguns milhões. A idéia foi usar os conhecimentos ao piano do nosso John aqui. Só que, apesar de ser um esforçado estudante de piano, ele jamais chegará a ser um virtuose. Nesse caso, o que fazer? Bom, com a ajuda do George, armamos a história do naufrago pianista.”
George interrompeu:
- Foi simples. Bastou fazer os contatos corretos para assegurar que a imprensa estivesse presente. John se mostrou um excelente ator e a única parte complicada foi pintar aqueles pedaços de pau de amarelo para lançar a história sobre o refugiado cubano! Caramba! Tanto cuidado e mesmo assim deixei passar aquele carimbo…
John sentou no sofá e desatou a rir:
- Caras! Ainda não entra na minha cabeça como é que acreditaram nessa história!
Richard estava atônito. Lentamente, a explicação entrava em sua mente. Ele disse:
- Seus sujos! Nem me convidaram para participar disso! E tiveram muita sorte, ainda por cima! Conseguiram vestir o John com roupas que não o denunciaram!
Paul se sentiu ofendido:
- Sorte uma ova! Cortamos todas as etiquetas que pudessem revelar que os trapos que preparamos para ele eram ingleses! Sorte uma ova, foi talento!
- HAHAHAHAHAHAHA!
Nesse ponto, todos ergueram suas taças e brindaram felizes. Afinal de contas, era inegável que aquele quarteto tinha um longo histórico de talento nesse tipo de negócio.
FIM
shikii disse,
Agosto 11, 2008 às 8:20 am
Depois de um certo tempo sem me comunicar, aqui estou eu pra comentar o primeiro conto que eu li.
Uma coisa engraçada que eu sempre notei em contos/historias é a influencia que certas coisas tem no nome que escolhemos para as personagens. No meu ultimo conto, todos os nomes dos personagens principais vieram de personagens de animes dos quais eu gostei. A influencia sua não seria tão obvia a mim se meu namorado não tivesse me entopindo de beetles desde que voltamos a namorar. Pior é aguentar ele com a nova guitarra o dia todo…a nova namorada dele, toda vez que chegamos na casa dele, ele abraça beijar ela e diz que estava morrendo de saudades.
Alias eu ando bem observadora ultimamente. Observei tambem que motoristas com carros brancos correm mais que os donos de outras cores, e que não pensaram na gravidade nula da lua quando fizeram uma cidade no Final Fantasy 4 lá em cima. Coisas…
Preciso tomar vergonha na cara e colocar no papel logo tudo que está na minha cabeça.
Beijo
Ana
adrianastrix disse,
Agosto 11, 2008 às 11:34 am
# Só pra contentar meu lado “cientista-louca-e-chata”, a gravidade da Lua não é nula, só é bem menor que a da terra. A aceleração da gravidade lá, ao invés de 9,8 m/s², é 6 m/s², ou algo por aí.
# [/lado nerd]
# Sério, Sam, “Castro está roubando nossa madeira!” foi golpe baixo. Não há quem resista a isso. :D Foi esse seu conto que me deu vontade de escrever algo brincando com Lucy in the Sky with Diamonds. Da próxima vez que o publicar, colocarei uma dedicatória a você, também. =3
# Aliás, as três coisas que uma pessoa precisa fazer na vida deviam ser quatro: escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho, e escrever um conto/crônica/poesia/música homenageando os Beatles. :D
# Pra você, falta pouco. xD
# Bjins!
Citando Agatha - Semana de 04 a 10.08.2008 « A Casa Torta disse,
Agosto 12, 2008 às 1:13 am
[...] Blog: Duckburg Library Post: Jangada Amarela “Um mistério digno dos livros de Agatha Christie”. Era desta forma que os jornais estavam [...]
shikii disse,
Agosto 12, 2008 às 5:26 am
É por causa de “cientista-louca-e-chata” como vc, que eu não vejo mais graça no mundo u_u.
Brincadeira.Física nunca foi meu forte. Alias eu até hoje me pergunto por que raios eu fiz eletronica.
E note que eu escrevi “lua”, e não “Lua”. Ou seja, em algum momento foi dito que é A Lua, a nossa lua? Acho que não xP~
E de qualquer forma, o mundo do Final Fantasy é diferente, então não tiro conclusão alguma disso.
Aiai, não da pra pensar direito depois de dormir as 3, acordar as 4 da madruga e trabalhar ate as 2 da tarde. Preciso tomar mais vergonha na cara e comecar uma rotina sudável -_-
Diego disse,
Setembro 1, 2008 às 11:35 am
haha gostei Rudi..
muito legal a critica q vc fez com o fato do “povo” comprar de tudo…bom é só tu ver o ibope que dá o big brother, o faustão, etc…
bom saber que ainda há os que acreditam que cypher não estava certo hehe
valeu